O HOLOCAUSTO BRASILEIRO
Leituras que fortalecerão o nosso pessimismo.
- "As Intermitências da Morte" de Saramago
- "Os Ratos" de Dyonélio Machado
3.5.11
Heróis cortadores das unhas dos pés.
24.9.10
Para alimentar nosso pessimismo... Um soneto de Augusto dos Anjos.
10.8.10
"Vivemos hoje a era que foi inaugurada por Hiroshima."
Uma das razões reais era que o presidente e o falcões da época queriam testar o brinquedo novo. Truman fala dele como um garoto: “Uau! No teste, fez uma torre de aço de 9.8.10
A ROSA COM CIRROSE
Mudas telepáticas
Pensem nas meninas
Cegas inexatas
Pensem nas mulheres
Rotas alteradas
Pensem nas feridas
Como rosas cálidas
Mas, oh, não se esqueçam
Da rosa da rosa
Da rosa de Hiroshima
A rosa hereditária
A rosa radioativa
Estúpida e inválida
A rosa com cirrose
A anti-rosa atômica
Sem cor sem perfume
Sem rosa sem nada
Não me esqueci de Hiroshima e Nagasaki
4.8.10
26.2.10
6.1.10
3.10.09
26.5.09
10.5.09
Reminiscências.
9.5.09
11.1.09
21.11.08
18.10.08
Insistir para não esquecer...


"HIROSHIMA" de John Hersey:
" A noite estava quente, e o calor parecia ainda mais intenso por causa dos incêndios, porém uma das meninas que os religiosos resgataram se queixou de frio. O padre Kleinsorge a cobriu com sua túnica. Com várias partes do corpo em carne viva - conseqüência de enormes queimaduras produzidas pela radiação térmica da explosão -, a menina ficara horas dentro do rio, com sua irmã mais velha, e a água salgada do Kyo seguramente lhe causara uma dor excruciante. Ela se pôs a tremer e novamente se queixou de frio. O padre Kleinsorge pediu um cobertor emprestado e a agasalhou, porém ela tiritava cada vez mais. 'Estou com muito frio', disse. De repente parou de tremer e morreu."
" Uns vinte homens e mulheres estavam no banco de areia. O sr. Tanimoto aproximou-se e os convidou a embarcar. Eles não se mexeram: estavam fracos demais para se levantar. O pastor estendeu os braços e tentou puxar uma mulher pelas mãos, porém a pele se desprendeu como uma luva. (...) Todos estavam nus e tinham as costas e o peito pegajosos, frios e úmidos. O reverendo se lembrou das grandes queimaduras que tinha visto durante o dia: amarelas a princípio, depois vermelhas e intumescidas com a pele solta, e, à noite, supuradas e fétidas."
"... Quando retornava com a água, o jesuíta se perdeu ao desviar de um tronco caído, e, enquanto procurava o caminho, ouviu uma voz perguntando entre os arbustos: 'O senhor tem alguma coisa para beber?'. O padre viu um uniforme. Julgando tratar-se de um soldado, aproximou-se, mas, ao penetrar na vegetação, deparou com uns vinte homens, todos no mesmo estado horripilante: o rosto inteiramente queimado, as órbitas vazias, as faces marcadas pelo líquido que escorrera das córneas derretidas. (Deviam estar olhando para cima, quando a bomba explodiu, talvez pertencessem à defesa antiaérea.) Sua boca se reduzira a uma chaga intumescida e coberta de pus, e eles não podiam juntar os lábios para receber o bico da chaleira."
"Uma relativa ordem começou a estabelecer-se no Hospital da Cruz Vermelha. O dr. Sasaki, já descansado, incumbiu-se de classificar seus pacientes (que ainda se espalhavam por toda parte, até nas escadas). Pouco a pouco os funcionários removeram os destroços. As enfermeiras e os atendentes passaram a retirar os cadáveres. Cremar os mortos e guardar as cinzas representa, para os japoneses, uma responsabilidade moral maior que os cuidados para com os vivos. Os parentes identificaram a maioria dos que morreram no primeiro dia dentro e em torno do hospital. A partir do segundo dia, sempre que um paciente parecia agonizante, prendia-se a sua roupa um papel com o seu nome. Os carregadores levavam os corpos para uma clareira e os queimavam nas piras que montavam com madeiras das casas destruídas; depois colocavam as cinzas em envelopes originalmente destinados às chapas de raixo X, que marcavam com os nomes dos falecidos e empilhavam, em ordem e com respeito, nas estantes do escritório central. Em poucos dias os envelopes encheram todo um lado desse santuário improvisado."
"Por toda parte - sobre os destroços, nas sarjetas, nas margens do rio, entre as telhas e as chapas de zinco dos telhados, nos troncos carbonizados das árvores - estendia-se um tapete verde, viçoso, otimista, que brotava até mesmo dos alicerces das casas em ruínas. O capim já escondia as cinzas, e flores silvestres despontavam em meio do esqueleto da cidade. A bomba não só deixaria intatos os órgãos subterrâneos das plantas como os estimulara. Por toda parte havia centáurea, iúcas, quenopódias, ipoméias, hemerocales, beldroegas, carrapichos, gergelim, capim e camomila. Principalmente num círculo do centro o sene vicejava numa extraordinária regeneração, não só entre os restos crestados da mesma planta, como em outros pontos, em meio aos tijolos e abaixo das fendas do asfalto. Parecia que o mesmo avião que jogara a bomba soltara também um carga de semente de sene."
3.10.08
27.9.08
Para não nos esquecermos...

"No dia 6 de agosto de 1945, precisamente às oito e quinze da manhã, hora do Japão, quando a bomba atômica explodiu sobre Hiroshima..."
"Então um imenso clarão cortou o céu... se lembraria nitidamente de que o clarão partiu do leste em direção ao oeste, da cidade em direção às montanhas. Parecia um naco de sol."
"... um clarão de um branco intenso, de um branco que nunca tinha visto até então, iluminou todas as coisas."
"E então viu o clarão, que na posição em que se achava -...-, pareceu-lhe de um amarelo intenso."
"Ao ver o terrível clarão - que, diria mais tarde, lembrou-lhe uma história que lera na infância, sobre a colisão de um meteoro imenso com a Terra..."
"... o clarão da bomba refletiu no corredor como um gigantesco flash fotográfico."
"... um clarão ofuscante encheu a sala."
O texto recortado é de autoria de John Hersey. Seu livro-reportagem "Hiroshima" descreve o exato momento em que seis sobreviventes japoneses começam a viver o inferno aqui na terra, após a explosão da bomba atômica que matou centenas de milhares de pessoas.
É impossível imaginarmos o terror que brotou dos céus e se espalhou pela cidade de Hiroshima. Terror que, ao menos, a reportagem tenta descrever para que não percamos de vista o poder descomunal destrutivo da energia atômica.
26.9.08
Para nunca esquecermos...


20.9.08
12.9.08
6.8.08
22.4.08
Rodolfo Mayer
Após descer do ônibus, ao tocar o chão da calçada, na retidão da avenida, já percebia ao longe o caminhante vago.
Sôfrego.
Passos calados envoltos pelas elegantes vestes, talvez de festas tristes.
Em poucos segundos o velho aproximava-se, crescendo aos meus olhos.
Eu o reconheço rapidamente: é rodolfo mayer, o mesmo de as escadas.
- Difícil, é muito difícil morrer... É, eu tenho a impressão de ter passado a vida morrendo.
Compassadamente, sem se importar com as folhas secas que caíam das árvores e com os carros que vociferavam ao vento, o homem caminhou seu caminho sem se importar com os meus olhos.
27.8.07
6.6.07
Mãe

Prá meu olhar pequeno.
O verde das montanhas
Ao longe...
Desce pelos vales,
Vence o riacho,
E morre ao pé das poucas ruas do vilarejo,
Soberano no espigão.
As casas insinuam-se ao sabor do relevo:
Como uma frágil cerca de balaustres
Envolvem a igreja,
Que, enraizada na terra escura,
Ergue-se impassivelmente vigorosa.
(Olho de Deus a me fitar ameaçadoramente)
Um dos balaustres
É minha casa.
Não, não estou triste.
Mas estamos todos tristes.
O pai enleva-se aos prantos:
Eduardo estendido inerte
Naquele caixão pequeno
Sobre a grande mesa
Naquela imensa sala.
- Olha filho, seu irmão está morto.
Pai, seu sentimento é o meu, nada mais.
Mãe, não a vi chorar, mãe!
A Natália, sim.
O pai, sim.
O tio, sim.
A vila toda, sim.
Talvez, o austero Deus também.
Eu, com meu olhar pequeno,
Como a mãe, não chorei.
18.4.07
Outra vez...!!!!
GOYA - "Saturno Devorando seu Filho", 1819 da Folha Online
Iraquianos cercam carros destruídos em Bagdá; três ataques matam ao menos 115. Outros 11 civis morreram e 13 ficaram feridos após a explosão de um carro-bomba perto de um hospital e um mercado em Karradah, no centro de Bagdá. Em outro atentado, quatro policiais morreram e seis civis ficaram feridos quando um carro-bomba atingiu um posto de controle da polícia iraquiana ao sul de Bagdá."A rua se transformou em uma piscina de sangue", afirmou Ahmed Hameed, dono de uma loja na região de Sadriya. Uma coluna de fumaça negra cobriu a área. Bombeiros tentavam controlar as chamas enquanto equipes de resgate retiravam corpos de veículos atingidos."Eu vi dezenas de corpos. Algumas pessoas foram queimadas vivas dentro de microônibus. Ninguém conseguia retirá-las após a explosão", afirmou uma testemunhas em Sadriya."Havia pedaços de corpos espalhados por todo o local. Mulheres gritavam", acrescentou.SegurançaOs atentados ocorreram horas depois que o premiê iraquiano, Nouri al Maliki, afirmou que tropas iraquianas assumirias o controle da segurança do país até o final deste ano. Maliki sofre intensa pressão para que as tropas americanas deixem o país, mas a explosão de ao menos cinco bombas nesta quarta-feira apontam os graves problemas na segurança.Os ataques podem acirrar a tensão sectária em Bagdá, principalmente entre os membros do Exército de Mehdi. Seis ministros ligados a Al Sadr deixaram o governo iraquiano na segunda-feira (16) para pressionar pela retirada dos 146 mil soldados dos EUA no Iraque.Bagdá vem sendo cenário de violência sectária desde o atentado contra uma mesquita xiita em Samarra em 22 de fevereiro. TropasEm discurso para marcar a entrega do controle da segurança da Província de Maysan (sul) ao Iraque, assessor para a Segurança Nacional, Mowaffaq al Rubaie, afirmou que três Províncias do Curdistão serão as próximas a serem entregues, seguidas de Kerbala e Wasit."Depois, Província por Província será entregue até o final deste ano", disse Al Rubaie.Maysan é a quarta das 18 Províncias iraquianas a serem entregues ao controle das forças iraquianas, depois de Muthanna, Najaf e Dhi Qar, todas regiões xiitas do sul do Iraque.No entanto, Maliki afirmou que forças iraquianas somente assumirão o controle total quando estiverem preparadas. "Alguns exigem um cronograma para o fim da presença estrangeira no Iraque", disse Maliki em discurso em Amara, capital de Maysan, 365 ao sul de Bagdá."Eu digo a eles que essa é a exigência de todos os iraquianos, e que estamos trabalhando para criar as circunstâncias para a retirada", acrescentou o premiê.
11.4.07
Desobedecer para não desaparecer

O texto de Oscar Wilde mostra-nos um pouco do que foi a pequena obra de Osório. Mudaremos nossa história se desobedecermos sempre, ou como diria o grande pessimista Fernando Pessoa: "Ser descontente é ser homem."
Vejam as primorosas palavras do Oscar Wilde, extraídas do livro "The Soul of Man Under Socialism", 1891:
"Desobediência: A Virtude Original do Homem"
"Qualquer pessoa que tenha lido a história da humanidade aprendeu que a desobediência é a virtude original do homem. O progresso é uma consequência da desobediência e da rebelião. Muitas vezes elogiamos os pobres por serem econômicos. Mas recomendar aos pobres que poupem é grotesco e insultante. Seria como aconselhar um homem que está morrendo de fome a comer menos; um trabalhador urbano ou rural que poupasse seria totalmente imoral. Nenhum homem deveria estar sempre pronto a mostrar que consegue viver como um animal mal alimentado. Deveria recusar-se a viver assim, roubar ou fazer greve - o que para muitos é uma forma de roubo.
Quanto à mendicância, é muito mais seguro mendigar do que roubar, mas é melhor roubar do que mendigar. Um pobre que é ingrato, descontente, rebelde e que se recusa a poupar terá, provavelmente, uma verdadeira personalidade e uma grande riqueza interior. De qualquer forma, ele representará uma saudável forma de protesto. Quanto aos pobres virtuosos, devemos ter pena deles mas jamais admirá-los. Eles entraram num acordo particular com o inimigo e venderam os seus direitos por um preço muito baixo. Devem ser também extraordinariamente estúpidos. Posso entender que um homem aceite as leis que protegem a propriedade privada e admita que ela seja acumulada enquanto for capaz de realizar alguma forma de atividade intelectual sob tais condições. Mas não consigo entender como alguém que tem uma vida medonha graças a essas leis possa ainda concordar com a sua continuidade.
Entretanto a explicação não é difícil, pelo contrário. A miséria e a pobreza são de tal modo degradantes e exercem um efeito paralisante sobre a natureza humana, que nenhuma classe consegue realmente ter consciência de seu próprio sofrimento. É preciso que outras pessoas venham apontá-lo, e mesmo assim muitas vezes não acreditam nelas. O que os patrões dizem sobre os agitadores é totalmente verdadeiro. Os agitadores são um bando de pessoas intrometidas que se infiltram num determinado segmento da sociedade muito satisfeito com a situação em que vive e semeiam o descontentamento nele. É por isso que os agitadores são necessários. Sem eles, em nosso Estado imperfeito, a civilização não avançaria."
13.2.07
Pessimismo que não deixa esquecer.
29.12.06
O ano que nunca termina

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"SOMOS MAIS RATOS DO QUE OS PRÓPRIOS RATOS"
Publicado na Folha de S.Paulo, terça-feira, 18 de outubro de 1994
“Da Agência Folha, em Recife
Maria das Dores da Conceição, 40, vive de catar lixo no aterro sanitário de Timbaúba e diz que come rato ``desde pequena''.
``O que tiver aí (aponta para o lixão) a gente come para não morrer de fome'', disse.
Com oito filhos que, segundo ela, também comem rato, Maria da Conceição afirma que nunca ficou doente por causa da comida.
De acordo com ela, a única coisa que as pessoas de sua família sentem é dor de cabeça, às vezes, mas ``por causa do sol''. ``Dor de barriga mesmo nunca deu'', afirmou ela.
A catadora de lixo captura os ratos que se escondem em buracos no depósito de lixo e depois cozinha os animais em uma fogueira.
O ``acompanhamento'' depende do que vier no lixo. Maria das Dores diz que varia de batata até cabeça de galinha.
``Nós somos mais ratos do que os próprios ratos'', afirma. A seguir, trechos da entrevista de Maria da Conceição à Agência Folha ontem à tarde.
Agência Folha - Você come os ratos que vivem no lixo?
Maria das Dores da Conceição - Como. Eu e todo mundo aqui. Não temos condições de comer outra coisa, então comemos rato para não morrer de fome.
Agência Folha - Como é que vocês comem o rato?
Maria - A gente pega o rato, joga na fogueira e raspa o cabelinho. Depois abre a barriga, tira as tripas, a cabeça e os pés, lava, põe sal e cozinha na brasa. Faço com batata, cabeça de galinha, o que vier no lixo.
Agência Folha - Alguém já foi mordido por um rato ou passou mal depois que comeu?
Maria - Nunca ninguém passou mal por causa da comida. A gente sente uma dor de cabeça às vezes, mas é do sol. Dor de barriga mesmo nunca deu. Nós somos mais ratos do que os próprios ratos
CIRCULO DE DANTE
Publicado na Folha da Manhã, segunda-feira, 19 de Abril de 1926
“Nas ruas de S.Paulo, nos mais febril dos bairros paulistas, no Braz morre-se de fome, em plena luz do sol! Morre-se de fome e não ha, sinão da parte dos operarios de lá, quem soccorra, quem se ponha em pé e brade em prol dos agonizantes do pão. Si o caso se passasse nos presídios de quasi além fronteiras, no extremo norte do paiz, a distancia haveria de minorar a desolação da verdade e muitos jornaes chamariam pelos infelizes, como se agitaria a organizada e ostentatoria caridade paulista. Entretanto, a fome trucida corpos a dois passos do centro, nas ruas adjacentes á Immigração. A fome abate ahi corpos de creanças inermes, de mulheres indefesas, de velhos que se esturram ao nosso sol, que se afogam no lamaçal daquellas sargetas, inanidos pelo jejum dolosso de não ter, de não saber imploral-o, porque desconhecem a lingua do paiz. E cá em cima quem se lembra delles, na hora farta da mesa lauta e bem regada? Quem dentre os directores de associações de caridade já se moveu até á Moóca para "de visu" verificar a mentira das noticias que certos interessados espalham na cidade? Onde a obra dos catholicos dos protestantes, dos espiritas, de todos que se dizem imitadores de Christo, caritativos dos momentos de effeito, nunca, porém, dos instantes necessarios? Nestes dias em que os moradores daquele bairro se affligem com a dolorosa visão de creança a agonizar nas calçadas, febrentas, com sarampo; quando os proprios encarcerados da Immigração protestar e clamam contra a perseguição que se move a esses pobres camponezes da Bessarabia, qual foi a representante da Cruz Vermelha, da Cruz Verde e não sabemos que outras côres, das senhoras catholicas ou de Therezinha de Jesus, que por lá surgiu, expondo-se a macular da lama os seus tacões a Luis XV?
Agora é que a caridade deveria fulgir, divino, a levar o conforto mais commum, um pedaço de pão, a esses homens, christãos e humanos como nós, que se extertoram nas garras da fome e da miseria mais completa. Agora seria o momento... e comtudo, justamente aquelles que menos podem, os operarios das fabricas, é que têm sido os unicos a surgir nesse quartel de desgraça humana. Num barracão, ao lado, uma familia de trabalhadores pauperrimos, acolhem um grupo desses infelizes: hontem, falleceram alli, duas creanças inanidas. Numa rapida vísita que lhe fizemos, veio-nos ao encontro um menino: a pelle parecia de pecego, sem sangue e mirrada; as pernas eram dois birros e tremia de febre, de fome. Pelas calçadas, moças desalentadas se estiravam, sem animo até para pedir. Amontoados e famintos, tresandam horrivelmente, ameaçando um epidemia virulenta. Pequeninos de alguns annos roiam pedaços de cenoura crua, pondo as mãosinha supplices aos que passavam. O nosso espanto foi crescendo á medida que penetravamos naquelle circulo de Dante, mas, odne cresceu de horror foi ao encontrarmos, entre esses extrangeiros sem pão, brasileiros, caboclos, pretos, esfaimados também. Ouçam, paulistas que se dizem christãos, ouçam e se quizerem certificar-se, vão até lá - entre extrangeiros que morrem de fome, em pleno coração de S.Paulo, ha brasileiros, ha outros paulistas que padecem da mesma falta de pão. Mas será crivel que até agora sejamos nós os unicos presenciadores de tamanha afflicção? E vós, senhores, que tendes filhos, que tendes mãe, porque não ides a essas pavorosas immediações da Immgração? Ide e se não chorardes, não sois brasileiros, porque não tendes coração. Alguem vos haverá dito que esses famintos são maus, são salteadores de lares de transuentes, nas ruas. Mentira! Ao redor dessa miseria toda, em frente a esse cemiterio onde agonizam e morrem de fome, ha botequins, ha negocios, ha padarias, há tudo e até hoje, uma fructa siquer desappareceu. E se elles roubassem para não morrer de inanição? A propria moral catholica o permittiria e o proprio Christo assim fez outróra. A verdade é que, em S. Paulo, no Braz, pelas ruas adjacentes á Immigração, morre-se de fome. Morrer de fome no Brasil!!! É espantoso, é horroroso! Morrer de fome em S. Paulo!... é uma afronta ao nosso coração.”
ETIÓPIA: 6 MILHÕES DE FAMINTOS


FOME MATA UMA CRIANÇA A CADA CINCO SEGUNDOS NO MUNDO

O SÉCULO DA FOME (OU TODOS OS SÉCULOS DA FOME)
38 MILHÕES DE FAMINTOS NA ÁFRICA
A POPULAÇÃO DA ETIÓPIA SOFRE COM A FOME
CORÉIA DO NORTE SOFRE COM A FOME
A FOME NO AFEGANISTÃO
FOME ATÉ NA ARGENTINA
... O TEMPO CORRE, MAS A IMAGEM DO PASSADO NÃO DEIXA A FOME MENTIR.
A FOME É PRÁ MUITOS... A FOME É PRÁ MUITOS...
A FOME É PRÁ MUITOS... E MATA!!!
3.12.06
Eles nos espreitam esperando a hora de nos "baionetar".
O Triunfo da Morte, Pieter Brueghel, o Velho (1572)Amigos pessimistas.
Estamos tristíssimos.
Pinochet morreu e não alimentará nem mesmo os vermes de que fala Machado, em Memórias Póstumas.
O mundo melhorou um pouquinho, mas não nos iludamos.
Seus adeptos nos espreitam pelos canos de seus fuzis, com as baionetas alertas.
Eles fortalecem o nosso pessimismo.
Ufa! Ainda bem!
A história explica.
1964
I
Céu azul
Sobre um mar de sonhos: nós.
II
Mas, minha nuvem favorita
Esgueirou-se lá prás bandas do inferno.
Voou, assim, como um pássaro ferido,
Impelido por um vento esquisito.
III
Céu metálico
Sobre prédios cinzentos: eles.
IV
Uma casa desabitada,
Uma carapaça oca: nós.
V
Ah!!!!
A esperança.
Ela morreu
Na barriga inchada de nossas mães.
Buê/1981
























