O HOLOCAUSTO BRASILEIRO

Ah... Meu pessimismo e ateísmo estavam, vamos dizer, arrefecidos... Coube à "cordialidade" do brasileiro acordá-los. Barbacena nunca mais!

Leituras que fortalecerão o nosso pessimismo.

  • "As Intermitências da Morte" de Saramago
  • "Os Ratos" de Dyonélio Machado

29.5.12

"Nós fotografamos crianças com menos de 10 anos de idade, com suas mãos amarradas e mortas com tiros à queima-roupa, a 10 cm de distância, apenas 10 cm. Eles cortaram seus pescoços com facas, não todo o pescoço, mas eles fizeram um buraco no pescoço, um buraco nos olhos."

Enterro de vítimas de massacre em Houla (AFP/Getty Images) Funeral em massa de vítimas do massacre em Houla (foto cedida à Reuters)
Corpos de vítimas de massacre na Síria (AFP)Corpos de mortos no massacre de Hula são vistos perfilados em foto tirada por civil sírio. Foto: Shaam News Network/AP

Os mesmos que pedem a paz na Síria, são os mesmos que vendem armas às nações. Eles fazem parte do conselho de Segurança da ONU que é composto por 15 membros, sendo cinco membros permanentes com poder de veto: USA, França, Reino Unido e China. Morde e Assopra é o lema da turma que manda nos destinos dos terráqueos. Eles são os maiores fabricantes de armas e não escolhem seus compradores, sejam eles iraquianos, vietamitas, colombianos, brasileiros e outros tantos. A paz é, portanto, o seu maior inimigo, Vejam o que ocorreu na Síria, no domingo, dia 27 de maio de 2012:

A BBC conversou com sobreviventes e testemunhas do massacre na aldeia de Taldou, em Houla, na Síria, no qual pelo menos 108 pessoas foram mortas.
Algumas testemunhas quiseram permanecer anônimas, e seus depoimentos, obtidos por telefone, não podem ser verificados de forma independente.
O governo nega as acusações diz que os ataques foram obra de "terroristas armados".Testemunhas dizem que o ataque foi perpetrado pelo Exército sírio e pela "Shabiha", uma milícia civil sectária que apoia o regime do presidente Bashar al-Assad.
Veja abaixo os depoimentos:

Hamza Omar, ativista de oposição em Houla

"Os membros da milícia 'Shabiha' atacaram as casas. Eles não tiveram compaixão. Nós fotografamos crianças com menos de 10 anos de idade, com suas mãos amarradas e mortas com tiros à queima-roupa, a 10cm de distância, apenas 10 cm. Eles cortaram seus pescoços com facas, não todo o pescoço, mas eles fizeram um buraco no pescoço, um buraco nos olhos."

Rasha Abdul Razaq, sobrevivente

"Nós estávamos em casa, eles entraram, a 'Shabiha' e as forças de segurança, eles entraram com fuzis Kalashnikov e rifles automáticos. (**Kalashnikov A arma mais assassina da História - AK-47, sigla da denominação russa Avtomat Kalashnikova odraztzia 1947 goda ("Arma Automática de Kalashnikov modelo de 1947"), é um fuzil/espingarda de assalto de calibre 7,62 x 39 mm criado em 1947 por Mikhail Kalashnikov e produzido na União Soviética pela indústria estatal IZH. Surgiu na União Soviética logo após o fim da Segunda Guerra Mundial, sendo o fuzil mais fabricado de todos os tempos. Estima-se que o número de exemplares produzidos tanto na Rússia como sob licença em países como a BulgáriaChinaHungriaÍndiaCoréia do NorteRomênia entre outros, chegue a impressionante cifra de 90 milhões.)
Nós perguntamos a eles o que estava acontecendo, e eles nos disseram para entrar. Nós dissemos: 'O que foi? O que vocês querem?'. Eles disseram: 'Mostrem tudo, o que vocês estão escondendo'. E nós dissemos: 'Nós não estamos escondendo nada'.
Eles nos levaram para um quarto e atingiram meu pai na cabeça com uma coronhada e atiraram nele, direto no queixo.
Eles nos levaram para dentro e nos disseram para ficarmos todos juntos, em um canto. Um homem começou a atirar para o alto, então nós todos nos escondemos atrás da minha mãe. Nós éramos cerca de 15 pessoas.
Então eles abriram fogo. Depois que eles atiraram contra nós, eles começaram a pisar em nós, e um dos homens pediu aos outros para checar se nós estávamos todos mortos. Então eles saíram e começaram a atirar para o alto.
Nós éramos oito irmãos, incluindo eu, e minha cunhada e seu filho. Ela estava grávida de seis meses. Também estavam conosco meu pai, a mulher do meu tio e sua filha, nossa vizinha e seus três filhos, minha tia e suas duas filhas. Uma delas ficou apenas ferida, e está aqui comigo agora, ela tem um mês de idade. A outra morreu. Todos nós estávamos na casa.
Eu sobrevivi com minha mãe, a menina de um mês de idade e minha irmã. Eles atiraram contra nós, mas nós sobrevivemos.
O que vai acontecer conosco? Quando ficamos sabendo que o Exército e as forças de segurança estão vindo, nós corremos para as ruas, nós estamos com medo de que eles repitam o que fizeram conosco no outro dia.
Havia cem casas na vizinhança, eles mataram todos os que estavam dentro. Eles entraram nas casas das pessoas e abriram fogo, e mataram todos."

Mãe de Rasha Abdul Razaq, sobrevivente

"Ele (um dos atacantes) disse: 'Nós somos das montanhas, de Fulla'. Então eu disse: 'Somos vizinhos então. Nós não temos terroristas aqui'. E ele disse: 'Vocês são os terroristas'.
Eles acharam que eu estava morta. Foi graças a Deus que eu sobrevivi. Ele estava atirando contra meus filhos e gritando. Por favor, consiga alguma proteção para mim e para minha filha. Nós estamos agora ficando nas casas de diferentes pessoas. Nós temos medo que eles acabem conosco."

Anônima, sobrevivente

"Nós estavamos abrindo nossas casas para eles, nós achavamos que eles eram do Exército e que estavam fazendo inspeções.
Um deles me disse: 'Volte para dentro, você é a próxima'. Eu estava com meu marido e meus filhos. Então peguei o comprovante de serviço militar de meu marido, achei que talvez assim eles talvez não nos incomodassem. Mas eu só sobrevivi porque um deles atirou contra o outro, por engano, e gritou: 'Preciso de ajuda, o pai foi ferido'. Isso os deixou ocupados, enquanto nós fugimos, em meio ao tiroteio, do Exército e da 'Shabiha'."

Anônima, sobrevivente

"Quando eles abriram a porta, eu ainda estava com eles na sala. Eu estava em pé, atrás da porta da sala de estar. Eles levaram meu irmão para fora. Eu me escondi no sótão. Tudo o que ouvi foram tiros, parecia que a casa inteira estava balançando.
Eu abri a porta e vi os corpos. Eu não conseguia reconhecer meus filhos e meus irmãos. Foi indescritível. Eu tenho três filhos, eu perdi três filhos. Eu estou tremendo, enquanto falo com você."

Um Mohammed, sobrevivente

"Nós fugimos na noite de sexta-feira… Eles estão nos atacando e matando pessoas… Nós fugimos pelas plantações, bombardeados aqui e ali. Não sei como conseguimos. Enquanto caminhavamos, atiradores miravam contra nós, nós nos escondemos nas plantações."

Um Abdullah, sobrevivente

"Bombardeios por todos os lados… Eu não tenho notícias da minha família. Por que vocês não estão intervindo? Os cadáveres estão se amontoando."

Akrama Bakour, do Exército Sírio Livre, em Houla

"Houve dois massacres. O primeiro aconteceu na estrada de Sadd e começou por volta das 14h30 de sexta-feira.
O segundo massacre aconteceu por volta das 23h, na estrada na entrada principal de Taldou, em frente ao posto de segurança militar.
Uma van, duas picapes e um grupo de motocicletas vieram da aldeia de Fulla – que apóia o regime –, na estrada entre Fulla e Taldou, a 500 ou 700 metros de Fulla.
Eles encontraram um pastor na entrada. Seu nome é Mahmoud al-Kurdi, e ele estava com sua nora e seus quatro netos. Eles atiraram contra eles, mataram todos, menos a nora. Ela foi ferida na coxa e na barriga, mas ainda está viva.
Então eles entraram na casa de Samir Abdul Razaq. Ele foi morto com seus filhos – Sawsan, Houda, Jouzila e Nada –, com sua nora, Halloum El Khlaf, grávida de seis meses, e o filho dela, Ala’a Abdul Razaq, a cunhada de Samir, Khaloud El Khalaf, e sua filha, Rahaf Al Hussein. Sua outra filha, Zahra Al Hussein, levou dois tiros, mas sobreviveu.
A mulher de Samir foi atingida a coronhadas e desmaiou, mas ainda está viva. Entre as vítimas nesta casa também estavam quatro crianças, filhas de Fadi al-Kurdi.
A próxima casa foi a de Qutayba Abdul Razaq. Ele sobreviveu, e sua filha de um ano de idade foi ferida. Ele perdeu a mulher e cinco filhos.
Todos esses de quem estou falando morreram a tiros. Eles foram reunidos em uma sala e mortos a tiros. Houve uma criança que teve a cabeça esfolada com uma faca. A faca foi encontrada entre os corpos, e nós temos fotos.
A terceira casa pertence a Nidal Abdul Razaq. Sua mulher e quatro de seus filhos foram mortos. Ele e um dos filhos sobreviveram.
Há várias outras vítimas. Adel Abdul Razaq, sua família inteira, mulher e seis filhos. Mustava Abdul Razaq, sua mulher, suas quatro filhas e sua nora. Ayman Abdul Razaq, todos os seus seis filhos e sua mulher foram mortos. Yaacoub Hussein Abdul Razaq, Mohammad Shafiq Abdul Razaq, Mohammad Abbara e sua filha Amina e a família dela, de sete pessoas.
Abdul Khalek Abdul Razaq, sua mulher e sua filha sobreviveram. Mas ele perdeu outros seis filhos, sua nora e os três filhos dela.
Abdul Rahman Abdul Razaq perdeu a mulher, cinco filhas e 11 netos, além das seis noras e quatro dos filhos delas. Na casa dele, 27 pessoas foram massacradas na mesma sala."




25.5.12

A família real britânica e o culto à imagem.


Londres prepara painéis gigantes para celebrar o jubileu da rainha (AP)


Bela imagem que esconde uma realidade apavorante:
"Londres prepara painéis gigantes para celebrar o jubileu da rainha."
E pensar que a família real britânica enriqueceu às custas da escravidão, às custas do imperialismo que sugou as riquezas de países como o Brasil e às custas de outras malvadezas...
Ah! O meu pessimismo encorpa cada vez mais. 

24.5.12

"Escrevo para desassossegar os meus leitores"



Para abalar as estruturas, Saramago recria o universo tenebroso do Antigo Testamento, numa crítica ácida que vai corroer as entranhas dos que acreditam em Deus.
Seguem  abaixo algumas frases do corajoso escritor português:
“Ao longo da História, as religiões, todas elas, sem exceção, fizeram à humanidade mais mal que bem.” 
“Deus não existe fora da cabeça das pessoas que nele creem.”
“O cérebro humano é um grande criador de absurdos. E Deus é o maior deles.”

9.8.11

Hiroshima e Nagasaki, sempre.




Hiroshima, meu amor

09 de agosto de 2011
Arnaldo Jabor - O Estado de S.Paulo
Outro dia tentei ver o filme Hiroshima Meu Amor de Alan Resnais e não consegui; parei no meio, porque as cenas documentais inseridas na estória são insuportáveis, mesmo para nossos olhos já acostumados a horrores.
Há 66 anos, em 6 e 9 de agosto de 1945 (anteontem), os americanos destruíram Hiroshima e Nagasaki. Todo ano me repito e escrevo artigos parecidos sobre a bomba nessa data. Mataram 150 mil pessoas em minutos e repetiram o feito, três dias depois. Escrevo sempre sobre esse fato histórico, sobre essa tragédia extra depois do holocausto, não para condenar um dos maiores crimes da humanidade, mas para lembrar que o impensável pode acontecer a qualquer momento. A situação no Oriente Médio, mesmo com a "primavera árabe" ainda meio ilusória, tende a um conflito entre o cada vez mais poderoso Irã e Israel, com o corrupto Paquistão atômico ao lado da Índia, também atômica. Sem falar no chiqueiro da Coreia do Norte.
Ou seja, vivemos ainda na era inaugurada por Hiroshima.
Lá e em Nagasaki, inaugurou-se a "guerra preventiva" como chamamos hoje.
Enquanto o holocausto dos judeus na Segunda Guerra fecha o século 20, o espetáculo luminoso de Hiroshima marca o início da guerra do século 21. O horror se moderniza, mas não acaba.
Auschwitz e Treblinkas ainda eram "fornos" da Revolução Industrial, eram massacres "fordistas", mas Hiroshima inventou a guerra tecnológica, virtual, asséptica. A extinção em massa dos japoneses no furacão de fogo fez em 1 minuto o trabalho de meses e meses do nazismo.
O que mais impressiona na destruição de Hiroshima é a morte "on delivery", "de pronta entrega", sem trens de gado humano, morte "clean", anglo-saxônica. A bomba americana foi considerada uma "vitória da ciência".
Os nazistas matavam em nome do ideal psicótico e "estético" de "reformar" a humanidade para o milênio ariano. As bombas americanas foram lançadas em nome da "Razão". Na luta pela democracia, rasparam da face da Terra os "japorongas", seres oblíquos que, como dizia Truman em seu diário:
"São animais cruéis, obstinados, traidores".
Seres inferiores de olhinho puxado podiam ser fritos como "shitakes"...
A bomba A agiu como um detergente, um mata-baratas. A guerra como "limpeza", o típico viés americano de tudo resolver, rápida e implacavelmente...
A destruição de Hiroshima foi "desnecessária" militarmente. O Japão estava de joelhos, querendo preservar apenas o imperador e a monarquia. Diziam que Hitler estava perto de conseguir a bomba - o que é mentira.
Uma das razões reais era que o presidente e os falcões da época queriam testar o brinquedo novo. Truman fala dele como um garoto: "Uau! É o mais fantástico aparelho de destruição jamais inventado! Uau! No teste, fez uma torre de aço de 60 metros virar um sorvete quente!...". O clima era lúdico e alucinado... tanto que o avião que largou a bomba A em Hiroshima tinha o nome da mãe do piloto na fuselagem - "Enola Gay" -, esse gesto de carinho derreteu no fogo 150 mil pessoas. Essa foi a mãe de todas as bombas, parindo um feto do demônio.
Os americanos queriam vingar Pearl Harbour, pela surpresa de fogo, exatamente como o ataque japonês três anos antes. Queriam também intimidar a União Soviética, pois começava a Guerra Fria; além, claro, de exibir para o mundo um show "maravilhoso" de som, luz e fúria, uma superprodução em cores do novo Império.
O espantoso também é que o holocausto sujou o nome da Alemanha (até hoje), mas Hiroshima soa como uma vitória tecnológica "inevitável". Na época, a bomba explodiu como um alívio e a opinião pública celebrou tontamente. Nesses dias, longe da Ásia e Europa, só havia os papéis brancos caindo como pombas da paz na Quinta Avenida, sobre os beijos de amor da vitória. Naquele contexto, não havia conceitos disponíveis para condenar esse crime hediondo. A época estava morta para palavras, na vala comum dos detritos humanistas.
Hoje, a época está de novo morta para palavras, insuficientes para deter ou mesmo descrever os fatos.
Agora, não temos mais a Guerra Fria; ficamos com a guerra quente do deserto - a mais perigosa combinação: fanatismo religioso e poder atômico. Vivemos dois campos de batalha sem chão; de um lado a cruzada errada do Ocidente, apesar de Obama, que foi contra e hoje tem de resolver os crimes do Bush.
Do outro lado, temos os homens-bomba multiplicados por mil. E eles amam a morte.
Hoje, já há uma máquina de guerra se programando sozinha e nos preparando para um confronto inevitável no Oriente Médio. Estamos num momento histórico onde já se ouvem os trovões de uma tempestade que virá. Os mecanismos de controle pela "razão", sensatez, pelas "soft powers" da diplomacia perdem a eficácia. Instala-se um progressivo irracionalismo num "choque de civilizações"; sim, sei do simplismo da análise do Huntington em 93, mas estamos diante do simplismo da realidade, formando uma equação com mil incógnitas impossíveis de solucionar. Como dar conta da alucinação islâmica religiosa com amor à morte, do Paquistão, Índia, Israel, do Irã dominado por ratos nucleares em breve, da invencibilidade do Afeganistão, com a hiperdireita de Israel com Bibi, com o Hamas ou o Hellzsbolah que querem impedir o "perigo da paz"? E agora, com a súbita vitória dos tea parties na América e a porrada que deram no Obama?
"There is a shit-storm coming" - disse Norman Mailer uma vez.
A crença na razão ocidental foi ferida por dois desastres: o 11 de Setembro e a era Bush-Cheney, que pode renascer agora. A caixa de Pandora que Bush abriu nunca mais se fechará.
Sente-se no ar o desejo inconsciente por tragédias que pareçam uma "revelação". Historicamente, sempre que uma situação fica insolúvel, prosperam as ideias mais irracionais, mais boçais para "resolver" o problema. Mesmo uma catástrofe sangrenta parecerá uma "verdade" nova. Já imaginaram os "tea parties" no Poder? 

3.5.11

Heróis cortadores das unhas dos pés.














Me desculpem o Rodin e o Antonio Prata, mas na crônica abaixo, substituindo-se o "cortar as unhas dos pés" por "sentar-se no trono" revelaria de forma mais visível a estapafúrdia tese - encampada por democratas e tiranos e seus aparelhos midiáticos - de que o ser humano precisa de heróis para viver:

"Li a história em algum lugar: toda vez que o poderoso general romano conquistava uma cidade e, parado no alto de uma colina, contemplava a extensão de seus domínios, vinha o subordinado para lhe cochichar no ouvido: "General: és baixo, gordo e calvo". O sussurro impedia que a glória subisse à cabeça -ou à careca- do militar, trazendo-o de volta às solas de suas sandálias, à sua risível condição humana: frágil e decadente.
 Eu também tenho, instalado dentro da minha cabeça, um desses assessores. Não para me resgatar dos píncaros da glória -no meu caso, meros calombos na planície do dia a dia, dos quais os espelhos, o senso de ridículo e o passar das horas encarregam-se de me trazer de volta-, mas para rebaixar outros, a quem tendo a ver como demasiadamente poderosos, às suas chãs humanidades. Eis o sussurro, capaz de transformar qualquer herói, celebridade ou tirano no mais comum dos mortais:"Imagine-os cortando as unhas dos pés".
 É este o mínimo denominador comum da humanidade:Obama cortas as unhas dos pés, Penélope Cruz corta as unhas dos pés, Jesus, na glória de seu ministério e Hitler, no auge de seu poderio, cortavam as unhas dos pés. Eles podem comer com talheres de prata, aparentar serem feitos de outro material, andar sobre as águas ou conquistar Paris, mas numa hora morta, encolhidos no banheiro ou no quarto, se verão sozinhos, segurando os pedacinhos de unha na mão em concha, ou depositando-os sobre a capa de uma revista, aberta no chão -assim como eu, você, o Jair Bolsonaro, a Preta Gil, a tia Lurdes, de Araraquara.
 Só há um momento na vida mais ínfimo do que ao cortar as unhas dos pés: quando nos preocupamos em cortar as unhas dos pés. Imagino Obama, antes de vir ao Brasil, no meio de uma reunião. Um militar lhe pergunta:"Presidente, iniciamos os bombardeios na Líbia?". Barack demora a responder. Está com a cabeça em outro lugar:"O hotel lá no Rio é em frente à praia. Talvez eu consiga dar um mergulho.Mas...Humpf... Minhas unhas dos pés estão grandes. Será que corto hoje à noite? Ou amanhã, no Air Force One, quando a Michelle e as meninas estiverem dormindo?".
 Talvez as unhas dos pés sejam um castigo divino. Ao expulsar-nos do Éden, além de condenar o homem a comer o pão com o suor do próprio rosto e a mulher a sofrer as dores do parto, rogou-nos a seguinte praga, perdida em alguma tradução do Antigo Testamento: "e por tua insolência porei na última fronteira de tua carne pequenas lâminas, às quais terás que aparar até que o derradeiro sopro se esgote em tuas narinas; e ao podá-las, curvado sobre o teu corpo frágil, contemplarás o pó do qual viestes, o pó ao qual voltarás, e lembrar-te-ás de tua pequenez, oh, arrogante nulidade!".
 Dizem que, mesmo nos mortos, quando postos em formol, as unhas continuam a crescer. Uma última ironia divina, quem sabe? O homem, único ponto em que o universo se percebe a si mesmo, apaga-se: aquelas ignaras células de queratina, contudo, continuam seu movimento, lento e inútil, em direção aos céus.
 Pois é, general: ainda que fosses alto, magro e cabeludo, serias mais frágil que as unhas dos teus pés. Que coisa, não?"

Crônica "As unhas dos pés", de Antonio Prata, in Cotidiano, 6/4/11, Folha de São Paulo.

24.9.10

Para alimentar nosso pessimismo... Um soneto de Augusto dos Anjos.

Jagiełło. /1996/

PSICOLOGIA DE UM VENCIDO

Eu, filho do carbono e do amoníaco,
Monstro de escuridão e rutilância,
Sofro, desde a epigênese da infância,
A influência má dos signos do zodíaco.

Profundissimamente hipocondríaco,
Este ambiente me causa repugnância...
Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia
Que se escapa da boca de um cardíaco.

Já o verme - este operário das ruínas -
Que o sangue podre das carnificinas
Come, e à vida em geral declara guerra,

Anda a espreitar meus olhos para roê-los,
E há de deixar-me apenas os cabelos,
Na frialdade inorgânica da terra!

10.8.10

"Vivemos hoje a era que foi inaugurada por Hiroshima."

As bombas desejam explodir
Arnaldo Jabor
Bom Dia Jornal – 10/08/2010

            Há 65 anos, em 6 e 9 de agosto de 1945, os americanos destruíram Hiroshima e Nagasaki. Todo ano me repito e escrevo artigos parecidos sobre a bomba nessa data, não para condenar um dos maiores crimes da humanidade, não, mas para lembrar que o impensável pode acontecer a qualquer momento.
            Agora, não temos mais a guerra fria. Ficamos com a guerra quente do deserto – a mais perigosa combinação: fanatismo religioso e poder atômico. Vivemos dois campos de batalha sem chão; de um lado a cruzada do Ocidente, apesar e além de Obama. Do outro lado, temos os homens-bomba multiplicados por mil. E eles amam a morte.
            Hoje, já há uma máquina de guerra se programando sozinha e nos preparando para um confronto inevitável no Oriente Médio. Estamos num momento histórico onde já se ouvem os trovões de uma tempestade que virá. Os mecanismos de controle pela “razão”, sensatez, pela “soft powers” da diplomacia perdem a eficácia.
            Como dar conta da alucinação islâmica religiosa com amor à morte, do Paquistão, Índia, Israel, do Irã dominado por ratos nucleares em breve, da invencibilidade do Afeganistão, com a hiper-direita de Israel com Bibi, com o Hamas ou o Hellzsbolah que querem impedir o “perigo da paz”?
            “There is a shit-storm coming” – disse Normam Mailer uma vez.
            Tudo leva a crer que algo terrível acontecerá. A crença na razão ocidental foi ferida por dois desastres: o “11 de setembro” e a invasão do Iraque. A caixa de Pandora que Bush abriu nunca mais se fechará.
            Estamos às vésperas de uma bruta mudança histórica. Sente-se no ar o desejo inconsciente por tragédias que pareçam uma “revelação”. Surge a fome por algo que ponha fim ao “incontrolável", a coisa que o ocidente mais odeia. Mesmo uma catástrofe sangrenta parecerá uma “verdade” nova.
            Vivemos hoje a era que foi inaugurada por Hiroshima.
            Lá, e em Nagasaki, três dias depois, inaugurou-se a “guerra preventiva” de hoje. Enquanto o holocausto dos judeus na Segunda Guerra fecha o século 20, o espetáculo luminoso de Hiroshima marca o início da guerra do século 21. O horror se moderniza, mas não acaba.
            Auschwitz e Treblinkas ainda eram “fornos” da Revolução Industrial, eram massacres “fordistas”, mas Hiroshima inventou a guerra tecnológica, virtual, asséptica. A extinção em massa dos japoneses no furacão de fogo fez em um minuto o trabalho de meses e meses do nazismo.
            O que mais impressiona na destruição de Hiroshima é a morte “on delivery”, “de pronta entrega”, sem trens de gado humano, morte “clean”, anglo-saxônica. A bomba americana foi considerada uma “vitória da ciência”.
            Os nazistas matavam em nome do ideal psicótico e “estético” de “reformar” a humanidade para o milênio ariano. As bombas americanas foram lançadas em nome da “razão”. Na luta pela democracia, rasparam da face da terra os “japorongas”, seres oblíquos que, como dizia Truman em seu diário: “São animais cruéis, obstinados, traidores.” Seres inferiores de olhinhos puxados podiam ser fritos como “shitakes”.
            A bomba-A agiu como um detergente, um mata-baratas. A guerra como “limpeza”,  o típico viés americano de tudo resolver, rápida e implacavelmente... E continua aí, cozinhando na impaciência dos generais israelenses e nos falcões do Pentágono.
            A destruição de Hiroshima foi “desnecessária” militarmente. O Japão estava de joelhos, querendo preservar apenas o imperador e a monarquia. Diziam que Hitler estava perto de conseguir a bomba – o que é mentira.
            Uma das razões reais era que o presidente e o falcões da época queriam testar o brinquedo novo. Truman fala dele como um garoto: “Uau! No teste, fez uma torre de aço de 60 metros virar um sorvete quente!...” O clima era lúdico e alucinado... tanto que o avião que largou a bomba-A em Hiroshima tinha o nome da mãe do piloto na fuselagem – “Enola Gay” – esse gesto de carinho derreteu no fogo 150 mil pessoas. Essa foi a mãe de todas as bombas, parindo um feto do demônio, exterminando 40 mil crianças em 15 segundos.

9.8.10

A ROSA COM CIRROSE




Rosa de Hiroshima

Ney Matogrosso

Composição: Vinícius de Moraes / Gerson Conrad
Pensem nas crianças
Mudas telepáticas
Pensem nas meninas
Cegas inexatas
Pensem nas mulheres
Rotas alteradas
Pensem nas feridas
Como rosas cálidas
Mas, oh, não se esqueçam
Da rosa da rosa
Da rosa de Hiroshima
A rosa hereditária
A rosa radioativa
Estúpida e inválida
A rosa com cirrose
A anti-rosa atômica
Sem cor sem perfume
Sem rosa sem nada

LITTLE BOY: HIROSHIMA; FAT MAN: NAGAZAKI

Não me esqueci de Hiroshima e Nagasaki


Os sobreviventes do inferno de Hiroshima e Nagasaki
HIROSHIMA, Japão — Três dias após o lançamento de uma bomba americana sobre Hiroshima, a pequena Kazuko Uragashira, de 6 anos, e sua família fugiram, num trem, da fornalha em que se transformou a cidade arrasada na manhã de 6 de agosto de 1945.
Conseguindo milagrosamente sobreviver ao inferno nuclear, a família queria encontrar abrigo na casa de um tio situada em Nagasaki. Ignorava, então, que um novo encontro com o destino a esperava.
Kazuko lembra-se de estar sentada num banco do trem, as pernas queimadas pelo sopro radioativo, quando a composição parou de repente num túnel na entrada de Nagasaki.
Era um pouco mais de 11H00 deste 9 de agosto: a segunda bomba atômica da história acabava de ser largada pelo exército americano sobre Nagasaki. "Era o inferno de novo", conta a sra. Uragashira, 65 anos depois.
Enquanto o comboio abria caminho penosamente através da carnificina, a menina descobria sobreviventes, com a pele queimada soltando-se em pedaços dos corpos mutilados. "Lembro-me ainda do odor da carne queimada e dos gritos dos moribundos pedindo água... não esquecerei jamais".
A sra. Uragashira, que mora hoje numa ilha ao largo de Nagasaki, faz parte dos raros "niju hibakusha" ainda vivos, sobreviventes do inferno causado pelos dois bombardeios atômicos da Segunda Guerra Mundial.
"Tive essa chance, porque muitos outros morreram instantâneamente. Mas gostaria de entender o por quê de uma coisa tão horrível ter-me acontecido duas vezes."
Cerca de 140.000 pessoas morreram em Hiroshima, no momento mesmo da explosão, ou das consequências das queimaduras e da radiação, e mais de 70.000 em Nagasaki.
Estima-se em cerca de 150 o número de pessoas que, como a sra. Uragashira foram expostas a duas deflagrações.
O cineasta Hidetaka Inazuka registrou os depoimentos desses "niju hibakusha", de 75 anos, em média, para guardar essa parte de sua memória.
No momento em que muitos americanos continuam a pensar que as bombas atômicas eram necessárias para acelerar o fim da guerra, Inazuka, como numerosos japoneses, estima que esses ataques foram injustificados, porque o Japão estava prestes a capitular.
"Hiroshima foi totalmente destruída, o que teria sido mais do que suficiente", comenta. "Devemos examinar com cuidado os motivos pelos quais foram lançadas em duas cidades."
Muitos "hibakusha" - sobreviventes de um ataque atômico - ficaram muito tempo em silêncio, temendo por eles mesmos e seus descendentes de serem alvo de discriminação, mas começam, hoje, a contar suas lembranças dolorosas.
"Nunca disse que era uma +hibakusha+ porque pensava que ninguém quereria me esposar", conta Misako Katani, 80 anos, que sobreviveu aos dois bombardeios.
"Havia cadáveres espalhados por toda a cidade", conta ela sobre Hiroshima. "Alguns estavam sem a pele, com os ossos à mostra, e outros inchados pela chuva negra."
Ela se lembra também de sua irmã de 14 anos, que teve o corpo como que xerocado na parede da casa familiar, onde também jaziam os restos de sua mãe.
A sra. Katani encarregou seu pai de transportar as cinzas ao túmulo da família em Nagasaki. A segunda deflagração deixou-a em coma durante três dias, fazendo-a perder todos os cabelos.
"As bombas atômicas destruíram minha vida", conta ela.
Os Estados Unidos nunca pediram desculpas ao Japão por essas vítimas inocentes.


10.5.09

Reminiscências.

Naquela tarde passada, o campinho se enchia de moleques. Moleques negros, moleques brancos, moleques sujos e limpos, felizes sempre, alegres sempre. Um sol forte sempre batendo na nossa cara, nos nossos olhares, nos nossos olhos, nas nossas bocas, nas nossa almas. E a pelada se iniciava com a escolha dos times. Os capitães procuravam escolher as melhores peças para enriquecer os seus times. Nenê, Ricardo, Dorival, Bebeto iam desfilando as suas bocas, os seus corpos e a organização ia tomando conta e acalmava aos poucos aquela balbúrdia inicial, aquela algazarra alegre. Formados os times, começava a pelada.
Naquela tarde, como sempre, me colocaram no gol e por uma dessas ocorrências da vida, o meu time saiu vencedor e eu fui destacado o herói da partida. Foi quando Nenê, jagando no time adversário, terminada a partida, me pega pelo braço e subitamente me agride com um tapa seco no rosto.
Terminava ali uma amizade de bons anos e no olhar do agressor eu sentia um ódio tão grande que não me agredia simplesmente, mas me paralizava os sentidos dando a impressão de me matar aos poucos. Completamente atordoado ante a inesperada situação nada fiz, senão aceitá-la e ser socorrido prontamente pela turminha.
De resto, nada mais aconteceu e quando a noite abriu seu leque negro sobre nossas vidas, eu já me encontrava em casa, quase que esquecido do incidente, não fosse a recordação daquele olhar de Nenê. Ainda hoje sinto um calafrio que vem de dentro e explode em minha mente quando aqueles dois olhos grandes e brilhantes me fitam como se estivessem à minha frente. O motivo, nunca consegui descobri-lo. Talvez consiga esclarecer repensando e vasculhando nas memórias de minha infância, que no geral transcorreu calma e alegre, com aquelas tardes ofuscantes de futebol, tardes de gramas espinhentas e pés descalços.

Otimista.Pessimista.

                                  Raio de sol:
                                  que aquece
                             e depois queima;
                                  que ilumina
                                e depois cega.

                                     O amor...

21.11.08

SEM PALAVRAS




"OS AMANTES" DE RENÉ MAGRITTE

18.10.08

Insistir para não esquecer...



"HIROSHIMA" de John Hersey:

" A noite estava quente, e o calor parecia ainda mais intenso por causa dos incêndios, porém uma das meninas que os religiosos resgataram se queixou de frio. O padre Kleinsorge a cobriu com sua túnica. Com várias partes do corpo em carne viva - conseqüência de enormes queimaduras produzidas pela radiação térmica da explosão -, a menina ficara horas dentro do rio, com sua irmã mais velha, e a água salgada do Kyo seguramente lhe causara uma dor excruciante. Ela se pôs a tremer e novamente se queixou de frio. O padre Kleinsorge pediu um cobertor emprestado e a agasalhou, porém ela tiritava cada vez mais. 'Estou com muito frio', disse. De repente parou de tremer e morreu."

" Uns vinte homens e mulheres estavam no banco de areia. O sr. Tanimoto aproximou-se e os convidou a embarcar. Eles não se mexeram: estavam fracos demais para se levantar. O pastor estendeu os braços e tentou puxar uma mulher pelas mãos, porém a pele se desprendeu como uma luva. (...) Todos estavam nus e tinham as costas e o peito pegajosos, frios e úmidos. O reverendo se lembrou das grandes queimaduras que tinha visto durante o dia: amarelas a princípio, depois vermelhas e intumescidas com a pele solta, e, à noite, supuradas e fétidas."

"... Quando retornava com a água, o jesuíta se perdeu ao desviar de um tronco caído, e, enquanto procurava o caminho, ouviu uma voz perguntando entre os arbustos: 'O senhor tem alguma coisa para beber?'. O padre viu um uniforme. Julgando tratar-se de um soldado, aproximou-se, mas, ao penetrar na vegetação, deparou com uns vinte homens, todos no mesmo estado horripilante: o rosto inteiramente queimado, as órbitas vazias, as faces marcadas pelo líquido que escorrera das córneas derretidas. (Deviam estar olhando para cima, quando a bomba explodiu, talvez pertencessem à defesa antiaérea.) Sua boca se reduzira a uma chaga intumescida e coberta de pus, e eles não podiam juntar os lábios para receber o bico da chaleira."

"Uma relativa ordem começou a estabelecer-se no Hospital da Cruz Vermelha. O dr. Sasaki, já descansado, incumbiu-se de classificar seus pacientes (que ainda se espalhavam por toda parte, até nas escadas). Pouco a pouco os funcionários removeram os destroços. As enfermeiras e os atendentes passaram a retirar os cadáveres. Cremar os mortos e guardar as cinzas representa, para os japoneses, uma responsabilidade moral maior que os cuidados para com os vivos. Os parentes identificaram a maioria dos que morreram no primeiro dia dentro e em torno do hospital. A partir do segundo dia, sempre que um paciente parecia agonizante, prendia-se a sua roupa um papel com o seu nome. Os carregadores levavam os corpos para uma clareira e os queimavam nas piras que montavam com madeiras das casas destruídas; depois colocavam as cinzas em envelopes originalmente destinados às chapas de raixo X, que marcavam com os nomes dos falecidos e empilhavam, em ordem e com respeito, nas estantes do escritório central. Em poucos dias os envelopes encheram todo um lado desse santuário improvisado."

"Por toda parte - sobre os destroços, nas sarjetas, nas margens do rio, entre as telhas e as chapas de zinco dos telhados, nos troncos carbonizados das árvores - estendia-se um tapete verde, viçoso, otimista, que brotava até mesmo dos alicerces das casas em ruínas. O capim já escondia as cinzas, e flores silvestres despontavam em meio do esqueleto da cidade. A bomba não só deixaria intatos os órgãos subterrâneos das plantas como os estimulara. Por toda parte havia centáurea, iúcas, quenopódias, ipoméias, hemerocales, beldroegas, carrapichos, gergelim, capim e camomila. Principalmente num círculo do centro o sene vicejava numa extraordinária regeneração, não só entre os restos crestados da mesma planta, como em outros pontos, em meio aos tijolos e abaixo das fendas do asfalto. Parecia que o mesmo avião que jogara a bomba soltara também um carga de semente de sene."

3.10.08