O HOLOCAUSTO BRASILEIRO
Ah... Meu pessimismo e ateísmo estavam, vamos dizer, arrefecidos... Coube à "cordialidade" do brasileiro acordá-los. Barbacena nunca mais!
Leituras que fortalecerão o nosso pessimismo.
- "As Intermitências da Morte" de Saramago
- "Os Ratos" de Dyonélio Machado
18.8.17
10.8.17
Little Boy em Hiroshima; Fat Man em Nagasaki.
FAT MAN: COMO UM HOMEM GORDO FEZ DESAPARECER 40.000 PESSOAS EM UM ÁTIMO DE TEMPO.
29.5.17
O nascimento de deus como uma grande idéia de negócio na história humana.
"Os agricultores acreditavam em histórias sobre deuses grandiosos. Eles erigiam templos ao deus de sua preferência, organizavam festivais em sua homenagem, ofereciam-lhe sacrifícios e davam-lhe terras, dízimos e presentes. Nas primeiras cidades da antiga Suméria, cerca de 6 mil anos atrás, os templos não eram apenas locais de culto; eram também os mais importantes centros políticos e econômicos. Os deuses sumérios preenchiam uma função análoga à das modernas marcas e corporações. Hoje, corporações são entidades ficcionais legais que possuem propriedades, emprestam dinheiro, contratam empregados e lançam empreendimentos econômicos. Nas antigas cidades de Uruk, Lagash e Shurupak, os deuses faziam as vezes de entidades legais que podiam ser proprietárias de campos e escravos, dar e receber empréstimos, pagar salários e construir represas e canais.
Como deuses nunca morrem, e como não têm filhos para disputar sua herança, eles acumularam cada vez mais propriedades e poder. Um número crescente de sumérios viu-se trabalhando para os deuses, tomando empréstimos junto a eles, cultivando suas terras e devendo-lhes impostos e dízimos. Assim como na San Francisco de hoje João é empregado da Google, enquanto Maria trabalha para a Microsoft, na antiga Uruk uma pessoa era empregada pelo grande deus Enki, ao passo que sua vizinha trabalhava para a deusa Inana. Os templos de Enki e de Inana dominavam a linha de horizontes de Uruk, e seus logotipos divinos eram a marca de prédios, produtos e roupas. Para os sumérios, Enki e Inana eram tão reais quanto o Google e a Microsoft são reais para nós. Comparados a seus antecessores - os fantasmas e espíritos da Idade da Pedra -, os deuses sumérios eram entidades muito poderosas.
Nem é preciso dizer que os deuses efetivamente não conduziam seus negócios, pela simples razão de que não existiam exceto na imaginação humana. As atividades cotidianas eram administradas pelos sacerdotes do templo (assim como o Google e a Microsoft têm de contratar humanos de carne e osso para gerenciar seus negócios). Contudo, à medida que os deuses adquiriam mais propriedades e mais poder, os sacerdotes já não eram mais capazes de dar conta. Ainda que representassem o poderoso deus do céu ou a onisciente deusa da terra, eles mesmos eram mortais falíveis. Era difícil lembra quais eram as propriedades, pomares e campos que pertenciam à deusa Inana, quais dos empregados já tinham recebido seus salários, quais inquilinos deixaram de pagar o aluguel e que taxas de juros a deusa cobrava de seus devedores. Esse foi um dos principais motivos pelos quais na Suméria, como em qualquer outra parte do mundo, as redes de cooperação humana não puderam se expandir significativamente, mesmo milhares de anos após a Revolução Agrícola. Não havia reinos enormes, nem extensas redes de comércio, nem religiões universais.
Esse obstáculo foi afinal removido há aproximadamente 5 mil anos, quando os sumérios inventaram a escrita e também o dinheiro. Esses irmãos siameses - nascidos dos mesmos pais, ao mesmo tempo e no mesmo lugar - acabaram com as limitações de processamento do cérebro humano. A escrita e o dinheiro possibilitaram que se começasse a coletar impostos de centenas de milhares de pessoas, a organizar burocracias complexas e a estabelecer amplos impérios. Na Suméria, esses reinos eram administrados em nome dos deuses por sacerdotes-reis humanos. No vizinho vale do Nilo deu-se um passo à frente, com a fusão do sacerdote-rei com o deus e a criação de uma deidade viva - o faraó."
Homo Deus - Uma breve história do amanhã, de Yuval Noah Harari, pag. 165/166, Companhia das Letras, 1a. edição, 2016.
11.3.17
14.2.17
BRASIL-COLÔNIA, 1942, 1976, 2017: A FORMAÇÃO DO BRASIL QUE NUNCA TERMINA.
O trecho abaixo foi extraído das páginas números 285 e 286, 14a. edição, Editora Brasiliense, 1976, do livro Formação do Brasil Contemporâneo, escrito por Caio Prado Júnior, em 1942.
Caio Prado revela um Brasil que não consegue desconectar-se de seu passado colonial e segue a sua evolução por "arrancos" em que cada passo avante há que retroceder outros dois, deixando rastros de destruição do que foi construído com o suor de seus habitantes. Foi assim um retrato do Brasil-colônia; foi assim um retrato da época em que o livro foi escrito, 1946, com Vargas; foi assim com a época em que este exemplar foi impresso, 1976, com a ditadura militar e finalmente é assim com o que vivemos hoje, 2017, com Temer. Qualquer momento histórico que visualizemos, os "arrancos" de que fala Caio Prado ali estará presente.
Somos ainda uma colônia, colônia de nós mesmos.
"Um último fator, finalmente, traz a sua contribuição, e contribuição apreciável de resíduos sociais inaproveitáveis. É a instabilidade que caracteriza a economia e a produção brasileira e não lhes permite nunca assentarem-se sólida e permanentemente em bases seguras. Em capítulo anterior já assinalei esta evolução por arrancos, por ciclos em que se alternam, no tempo e no espaço, prosperidade e ruína, e que resume a história econômica do Brasil-colônia. As repercussões sociais de uma tal história foram nefastas: em cada fase descendente, desfaz-se um pedaço da estrutura colonial, desagrega-se a parte da sociedade atingida pela crise. Um número mais ou menos avultado de indivíduos inutiliza-se, perde suas raízes e base vital de subsistência. Passará então a vegetar à margem da ordem social. Em nenhuma época e lugar isto se torna mais catastrófico e atinge mais profunda e extensamente a colônia, que no momento preciso em que abordamos a nossa história, e nos distritos da mineração. Vamos encontrar aí um número considerável destes indivíduos desamparados, evidentemente deslocados, para quem não existe o dia de amanhã, sem ocupação normal fixa e decendente remuneradora; ou desocupados inteiramente, alternando o recurso à caridade com o crime. O vadio na sua expressão mais pura. Os distritos auríferos de Minas Gerais, Goiás, Mato Grosso oferecem tal espetáculo em proporções alarmantes que assustarão todos os contemporâneos. Uma boa parte da população destas capitanias estava nestas condições, e o futuro não pressagiava nada de menos sombrio."
10.8.16
9.8.16
8.8.16
CRIME AMBIENTAL EM MARÍLIA.
AS ÁRVORES DA IMAGEM ABAIXO FORAM ARRANCADAS DESDE A RAIZ PELO SUPERMERCADO CONFIANÇA, EM MARÍLIA, NA AV. DR. TIMÓTEO BRUNO BELUCE. ELAS, AS ÁRVORES INTRUSAS, ATRAPALHAVAM A VISÃO QUE OS TRANSEUNTES TINHAM DAS INSTALAÇÕES DO PRÉDIO DO SUPERMERCADO. TRATA-SE DO "PADRÃO DE ATUAÇÃO" CONFIANÇA SENDO IMPLEMENTADO EM SEU MAIS NOVO EMPREENDIMENTO, PADRÃO QUE OS CLIENTES JÁ CONHECEM E ESPERAM.

Obsolescência programada.
A idade já avançada pesa-lhe nas costas e a vitalidade de outrora ficou presa na lembrança passadista. Mesmo assim seus pesados passos percorrem a distância com alguma facilidade buscando enganar a morte que se avizinha; mesmo assim as tarefas diárias são realizadas a contento apesar da ofegância pulmonar tirar-lhe a capacidade plena de vida.
Certa manhã, o previsto aconteceu. Um buraco na rua, resultado da inoperância governista, coloca-o abaixo e estatelado no asfalto geme uma dor nunca antes sentida. A demora no atendimento médico, com a ambulância chegando muito tempo depois do ocorrido, faz seu corpo velho sofrer: a quebradura atingiu a base do fêmur.
Vários dias de internação, o diagnóstico médico é certeiro: o velho precisa de cirurgia para o implante de prótese.
Cirurgia delicada, o velho passa pela situação com muita galhardia e coragem e a recuperação será lenta e dolorosa.
Mas ele resiste e a morte é adiada mais uma vez.
A obsolescência programada ficou para trás. Seu prazo de validade está expirando, mas ainda corre o sangue pelas grossas veias como caminhos que levam a lugar nenhum.
Caminhos que todos sabemos onde vai dar.
Certa manhã, o previsto aconteceu. Um buraco na rua, resultado da inoperância governista, coloca-o abaixo e estatelado no asfalto geme uma dor nunca antes sentida. A demora no atendimento médico, com a ambulância chegando muito tempo depois do ocorrido, faz seu corpo velho sofrer: a quebradura atingiu a base do fêmur.
Vários dias de internação, o diagnóstico médico é certeiro: o velho precisa de cirurgia para o implante de prótese.
Cirurgia delicada, o velho passa pela situação com muita galhardia e coragem e a recuperação será lenta e dolorosa.
Mas ele resiste e a morte é adiada mais uma vez.
A obsolescência programada ficou para trás. Seu prazo de validade está expirando, mas ainda corre o sangue pelas grossas veias como caminhos que levam a lugar nenhum.
Caminhos que todos sabemos onde vai dar.
5.10.15
SAPIENS - UMA BREVE HISTÓRIA DA HUMANIDADE; 2001 - UMA ODISSÉIA NO ESPAÇO E A EVOLUÇÃO DO SER HUMANO.
"Um animal insignificante"
HÁ CERCA DE 13,5 BILHÕES DE ANOS, A MATÉRIA, A ENERGIA, O TEMPO E O ESPAÇO surgiram naquilo que é conhecido como o Big Bang. A história dessas características fundamentais do nosso universo é denominada física.
Por volta de 300 mil anos após seu surgimento, a matéria e a energia começaram a se aglutinar em estruturas complexas, chamadas átomos, que então se combinaram em moléculas. A história dos atómos, das moléculas e de suas interações é denominada química.
Há cerca de 3,8 bilhões de anos, em um planeta chamado Terra, certas moléculas se combinaram para formar estruturas particularmente grandes e complexas chamadas organismos. A história dos organismos é denominada biologia.
Há cerca de 70 mil anos, os organismos pertencentes à espécie Homo sapiens começaram a formar estruturas ainda mais elaboradas chamadas culturas. O desenvolvimentos subsequente dessas culturas humanas é denominado história.
Três importantes revoluções definiram o curso da história. A Revolução Cognitiva deu início à história, há cerca de 70 mil anos. A Revolução Agrícola a acelerou, por volta de 12 mil anos atrás. A Revolução Científica que começou há apenas 500 anos, pode muito bem colocar um fim à história e dar início a algo completamente diferente. Este livro conta como essas três revoluções afetaram os seres humanos e os demais organismos."
O texto acima é o início do livro "Sapiens - Uma breve história da humanidade " de Yuval Noah Harari, editora L&PM editores, pag. 11.
Ali estão as principais idéias que o autor vai desenvolver ao longo de cerca de 450 páginas do livro.
Em primeiro lugar ele coloca o homo sapiens em seu devido lugar no universo: um animal insignificante que, graças a uma infinidade de coincidências da natureza, o tornou rei dos animais. Rei assim, porque nós, no alto de nossa prepotência, nos declaramos. E com essa idéia aniquilamos a maioria dos seres vivos do planeta e devemos continuar nessa viagem até talvez aniquilarmos a nós próprios. Insignificante porque "gostemos ou não, somos membros de uma família grande e particularmente ruidosa chamada grandes primatas. Nossos parentes vivos mais próximos incluem os chimpanzés, os gorilas e os orangotangos. Os chimpanzés são os mais próximos. Há apenas 6 milhões de anos, uma mesma fêmea primata teve duas filhas. Uma delas se tornou a ancestral de todos os chimpanzés; a outra é nossa avó." (pag. 13)
Em segundo lugar, ele faz um resumo extraordinariamente bem feito, de como o universo se desenvolveu, independente da vontade do homo sapiens, que é um produto desse universo. Física, química, biologia levam à criação de organismos, inclusive o homo sapiens que, diferenciando-se de outros animais, cria a história. De um lado, temos o que ele chama de ordem natural e de outro, a história, a ordem imaginada. Aqui o sapiens se destacou e criou de forma artificial o mundo em que habitamos. Três ordens imaginadas contribuíram para alcançarmos o estágio atual: a ordem monetária, com a criação do dinheiro; a ordem imperial, com a criação da política e os processos de dominação dos povos e a ordem religiosa com a criação de religiões universais como o budismo o cristianismo e o islamismo.
Em último lugar, o autor relata as revoluções que afetaram o desenvolvimento do sapiens: a cognitiva, quando o desenvolvimento do cérebro humano o diferenciou de outros animais; a agrícola, quando se dominou as técnicas para a produção de alimentos e a científica com o domínio e o desenvolvimento da tecnologia e que se estende até os nossos dias.
Para o autor o fim da história está decretado. O que advirá no futuro é sombrio: "Há 70 mil anos, o homo sapiens ainda era um animal insignificante cuidando da sua prória vida em algum canto da África. Nos milênios seguintes, ele se transformou no senhor de todo o planeta e no terror do ecossistema. Hoje, está prestes a se tornar um deus, pronto para adquirir não só a juventude eterna como também as capacidades divinas de criação e destruição." (pag.427).
As cenas iniciais do filme de Kubrick, 2001 - Uma odisséia no espaço, de 1968, ilustram o que o Noah Harari discorre em seu livro: em algum canto do planeta nossos ancestrais, com o despertar da inteligência, adquire a capacidade de utilizar as ferramentas, inclusive para matar, prenúncio de sua forma constante de agir e transformar os rudimentos de um osso em tecnologia ao longo da história.
8.7.15
Brasil: Estado Democrático de Direito ou Republiqueta das/dos Bananas?
Moradores espancam assaltante até a morte em São Luís do Maranhão.
5.6.15
Alimentando o meu pessimismo.
Monge budista incita violência contra muçulmanos em Mianmar
Do UOL, em São Paulo
20.jun.2014 - O controverso monge budista Ashin Wirathu (de laranja) é acusado de instigar a violência sectária entre budistas e muçulmanos em seus sermões
Um monge budista é apontado por ativistas de direitos humanos como um dos principais responsáveis pelo aumento da violência sectária e pelo êxodo de membros da etnia rohingya de Mianmar nos últimos dois anos.
Apelidado de "Bin Laden birmanês", Ashin Wirathu, 46, líder do grupo nacionalista budista 969, faz sermões e posts inflamados, que são distribuídos pelas redes sociais.
Neles, dissemina boatos e defende o boicote a negócios mantidos por muçulmanos --a quem ele chama de "cobras", "cachorros loucos" ou pelo termo depreciativo "kalar" (pretos).
Muçulmanos, os rohingyas são cerca de 2% de uma população em que 9 em cada dez habitantes são budistas --é difícil saber exatamente quantos são, já que foram excluídos do último censo, em 2014.
"Os muçulmanos querem destruir nosso país, nosso povo e a religião budista", afirmou Wirathu em um discurso.
Em encontro recente com jornalistas internacionais em Yangon, ele disse: "Já li o Corão. Honestamente, não achei lá nada de que eu tenha gostado".
"Apesar de serem uma minoria, nossa raça tem sofrido sob seu jugo", afirmou o monge em entrevista de 2013, disponível no YouTube. "A maioria budista não os corrompeu nem abusou deles. Mas temos sofrido com este fardo."
"Por isso é que, se houver tantos muçulmanos quanto há budistas, Mianmar não terá paz", finalizou.
Wirathu chegou a ficar preso por oito anos, condenado por incitação à violência, mas foi solto em 2011 após uma anistia geral no país.
Em julho do ano passado, o monge postou no Facebook que dois irmãos muçulmanos haviam estuprado uma budista em Mandalay, a segunda maior cidade do país e origem de Wirathu.
Em seguida, uma gangue budista promoveu ataques aos bairros islâmicos, e dois muçulmanos foram mortos. A polícia nunca interveio. Mais tarde, a moça confessou ter inventado a história.
"Desde outubro de 2012, quase todo incidente de violência sectária tem sido precedido por uma pregação do 969 --e normalmente do próprio Wirathu", afirmou um relatório do grupo de direitos humanos americano Justice Trust.
"Wirathu tem um papel central com seu discurso de ódio e a islamofobia que ele gera, dado que os rohingyas são cercados por uma comunidade hostil que pode ser incitada à violência muito rapidamente", disse ao jornal "Los Angeles Times" Penny Green, da Queen Mary University of London, autor de um relatório sobre Miamar.
"Por que essas pessoas estão fugindo em botes? Por que elas se arriscam à morte em alto-mar? Porque a existência que têm e a falta de futuro são piores", acrescentou.
Grupos alertam que a perseguição sistemática sofrida pelos rohingyas em Mianmar se assemelha à situação que antecedeu os genocídios de Ruanda e de Srebrenica (Bósnia-Herzegovina).
Como não são uma etnia reconhecida pelo governo de Mianmar e são apátridas, eles não podem trabalhar, não têm acesso a educação, liberdade de movimento e direito a voto.
Em alguns Estados, eles precisam de autorização especial para casar, só podem ter no máximo dois filhos e vivem em guetos desprovidos de qualquer infraestrutura. (Com agências internacionais, BBC e Los Angeles Times)
Do UOL, em São Paulo
- 20.jun.2014 - O controverso monge budista Ashin Wirathu (de laranja) é acusado de instigar a violência sectária entre budistas e muçulmanos em seus sermões
Um monge budista é apontado por ativistas de direitos humanos como um dos principais responsáveis pelo aumento da violência sectária e pelo êxodo de membros da etnia rohingya de Mianmar nos últimos dois anos.
Apelidado de "Bin Laden birmanês", Ashin Wirathu, 46, líder do grupo nacionalista budista 969, faz sermões e posts inflamados, que são distribuídos pelas redes sociais.
Neles, dissemina boatos e defende o boicote a negócios mantidos por muçulmanos --a quem ele chama de "cobras", "cachorros loucos" ou pelo termo depreciativo "kalar" (pretos).
Muçulmanos, os rohingyas são cerca de 2% de uma população em que 9 em cada dez habitantes são budistas --é difícil saber exatamente quantos são, já que foram excluídos do último censo, em 2014.
"Os muçulmanos querem destruir nosso país, nosso povo e a religião budista", afirmou Wirathu em um discurso.
Em encontro recente com jornalistas internacionais em Yangon, ele disse: "Já li o Corão. Honestamente, não achei lá nada de que eu tenha gostado".
"Apesar de serem uma minoria, nossa raça tem sofrido sob seu jugo", afirmou o monge em entrevista de 2013, disponível no YouTube. "A maioria budista não os corrompeu nem abusou deles. Mas temos sofrido com este fardo."
"Por isso é que, se houver tantos muçulmanos quanto há budistas, Mianmar não terá paz", finalizou.
Wirathu chegou a ficar preso por oito anos, condenado por incitação à violência, mas foi solto em 2011 após uma anistia geral no país.
Em julho do ano passado, o monge postou no Facebook que dois irmãos muçulmanos haviam estuprado uma budista em Mandalay, a segunda maior cidade do país e origem de Wirathu.
Em seguida, uma gangue budista promoveu ataques aos bairros islâmicos, e dois muçulmanos foram mortos. A polícia nunca interveio. Mais tarde, a moça confessou ter inventado a história.
"Desde outubro de 2012, quase todo incidente de violência sectária tem sido precedido por uma pregação do 969 --e normalmente do próprio Wirathu", afirmou um relatório do grupo de direitos humanos americano Justice Trust.
"Wirathu tem um papel central com seu discurso de ódio e a islamofobia que ele gera, dado que os rohingyas são cercados por uma comunidade hostil que pode ser incitada à violência muito rapidamente", disse ao jornal "Los Angeles Times" Penny Green, da Queen Mary University of London, autor de um relatório sobre Miamar.
"Por que essas pessoas estão fugindo em botes? Por que elas se arriscam à morte em alto-mar? Porque a existência que têm e a falta de futuro são piores", acrescentou.
Grupos alertam que a perseguição sistemática sofrida pelos rohingyas em Mianmar se assemelha à situação que antecedeu os genocídios de Ruanda e de Srebrenica (Bósnia-Herzegovina).
Como não são uma etnia reconhecida pelo governo de Mianmar e são apátridas, eles não podem trabalhar, não têm acesso a educação, liberdade de movimento e direito a voto.
Em alguns Estados, eles precisam de autorização especial para casar, só podem ter no máximo dois filhos e vivem em guetos desprovidos de qualquer infraestrutura. (Com agências internacionais, BBC e Los Angeles Times)
27.2.15
Ser humano: ser desprezível
Tudo em nome de deus:

Olhar Estadão
Arte nas ruínas
Criança palestina passa ao lado de um mural pintado pelo artista britânico Banksy, na faixa de Gaza. Foto: Mohammed Abed/AFP
Olhar Estadão
Arte nas ruínas
Criança palestina passa ao lado de um mural pintado pelo artista britânico Banksy, na faixa de Gaza. Foto: Mohammed Abed/AFP
31.1.15
Ser humano: ser desprezível
TUDO EM NOME DE DEUS:

DEVASTAÇÃO DA CIDADE SÍRIA DE KOBANI.
Em O Estado de São Paulo
DEVASTAÇÃO DA CIDADE SÍRIA DE KOBANI.
Em O Estado de São Paulo
30.11.14
Viagem pela memória de campos de concentração no Ceará; veja vídeo
ANNA VIRGINIA BALLOUSSIER
fotografia ISADORA BRANT
fotografia ISADORA BRANT
RESUMO Com as secas do início do século 20, famintos dirigiam-se à capital do Ceará, assombrando as elites que idealizavam uma Fortaleza "belle époque", moderna -e limpa. O governo criou campos cercados para confinar milhares de retirantes; hoje, alguns tentam evitar que a memória desses lugares se apague.
*
Uma coisa era certa: aquela gente fedida, piolhenta, faminta e desesperada tinha que ser mantida à distância. Era 1932, e Fortaleza não parecia disposta a olhar para trás. Na virada do ano, a capital cearense inaugurava o hotel Excelsior, seu primeiro arranha-céu. Em sua edição de 2 de janeiro, o jornal "O Povo" destacava o "terraço aprazibilíssimo, de onde se descortinam belíssimos panoramas do mar, das serras e dos sertões vizinhos".
O novo prédio anunciava novos tempos e contrastava com a precariedade da multidão imigrante dos "sertões vizinhos", que fugia de uma das piores secas já vistas no Nordeste. Alguém precisava fazer algo, e rápido, antes que a turba miserável eclipsasse a "loira desposada do sol", epíteto da capital oxigenada pela síndrome de "belle époque" brasileira. A resposta governamental foi confinar os que vinham de trem em sete currais cercados com varas e arame farpado, próximos à estrada de ferro.
Eram homens, mulheres, velhos e crianças, de cabeça raspada contra piolhos, alguns vestidos em sacos de farinha com buracos para enfiar o pescoço. Os mais robustos serviam de mão de obra em fazendas e obras públicas. Milhares morreram de fome, sede ou doenças. Com entrada compulsória e sem data para o "check out", esses depósitos humanos tinham nome: campos de concentração.
Só em 1933 os nazistas criariam seu primeiro campo, numa fábrica de pólvora reestruturada para encarcerar comunistas, sindicalistas e outros desafetos do chanceler Adolf Hitler. A prática de isolar os "molambudos" dos "cidadãos de bem" já era velha conhecida no Brasil de Getúlio Vargas -um país em que a população caminhava para os 40 milhões.
Dados oficiais contavam 73.918 aprisionados pouco mais de um mês após a abertura dos campos em seis cidades do Ceará (Crato, Ipu, Quixeramobim, Senador Pompeu, Cariús e Fortaleza), conforme relata a historiadora Kênia Sousa Rios, autora de "Campos de Concentração no Ceará: Isolamento e Poder na Seca de 1932" (Museu do Ceará, 2006). As duas aglomerações da capital viraram até atração turística: visitantes doavam uma certa quantidade de dinheiro aos enjaulados e dali saíam com "a sensação de dever cumprido".
"O risco de ter a cidade invadida pela 'sombra sinistra da miséria' parece seguido da compreensão de que a situação é trágica, portanto merece a atenção da burguesia caridosa e civilizada", escreveu a historiadora no artigo "A Cidade Cercada na Seca de 1932" (publicado no volume "Seca", Edições Demócrito Rocha, 2002).
ESMOLINHA
No romance "O Quinze", Rachel de Queiroz narra como a heroína Conceição "atravessava muito depressa o campo de concentração", trêmula ao ouvir a súplica: "Dona, uma esmolinha". Apertava o passo, "fugindo da promiscuidade e do mau cheiro do acampamento".
Algo de fato cheirava mal no Ceará, e desde a grande estiagem de 1877, a elite local sentia o odor. Sete anos antes, haviam sido estabelecidas normas de conduta "que identificavam a 'modernidade fortalezense' com a 'civilidade europeia'", fazendo da capital "um modelo asséptico para todas as cidades cearenses", escreveu o historiador Tanísio Vieira no artigo "Seca, Disciplina e Urbanização" (também coligido em "Seca"). Uma das proibições fixadas era a de sair às ruas sem "pelo menos camisa e calça, sendo aquela metida por dentro desta".
Imposições dessa ordem eram a última coisa a passar pela cabeça dos mais de 100 mil sertanejos em retirada da seca de 1877. Fortaleza, então com 30 mil habitantes, viu sua população se multiplicar por três. O governo, por sua parte, redobrou esforços para que a invasão bárbara jamais se repetisse.
| Isadora Brant/Folhapress | ||
| Dona Carmélia, cujo pai trabalhava em um dos campos |
Em "A Seca de 1915", o escritor Rodolfo Teófilo (1853-1932) descreveu o pioneiro campo do Alagadiço, nos arredores da capital, que serviria de piloto para os sete campos dos anos 1930: "Um quadrilátero de 500 metros onde estavam encurralados cerca de 7.000 retirantes". Lá, quando havia comida, ganhavam "reses que morriam de magras ou do mal [peste]", cozidas "em algumas dúzias de latas que haviam sido de querosene".
O jornal "O Nordeste" anunciava o 17 de fevereiro de 1923 como o Dia da Extinção da Mendicância. Ser mendigo seria, a partir dali, contra a lei. Se ruas e praças continuassem "expostas a graves perigos de ordem moral", os infratores seriam enviados ao Dispensário dos Pobres, sob os auspícios da Liga das Senhoras Católicas Brasileiras. A ideia, na prática, não foi longe, e as madames continuaram a ouvir: "Dona, uma esmolinha".
Nem toda a caridade cristã seria o bastante para dar conta da diáspora de 1932, quando jornais falavam do "exército sinistro de esfomeados" em marcha até a capital.
PAPA-FIGO
Ainda hoje, em Senador Pompeu, circula a lenda sobre um ente que surge de supetão para abrir seu bucho e roubar um pedaço do fígado. A fábula do Papa-Figo nasce de fatos reais. Carmélia Gomes, 91, que era uma menina em 1932, lembra do médico que extraía amostras do órgão de quem morria no campo e as mandava à capital para análise clínica.
Dentro de sua casinha, semelhante a tantas outras nas redondezas, dona Carmélia prende os cabelos brancos e senta-se numa cadeira de plástico roxo, logo abaixo de pôsteres dos papas João Paulo 2º e Bento 16. Ela conta que, até sofrer um assalto, vivia num terreno mais ermo, terra onde seu pai trabalhava 82 anos atrás.
| Isadora Brant/Folhapress | ||
| Ruínas do campo de concentração de retirantes de Senador Pompeu |
Antônio Gomes se despedia com um beijo na testa da mocinha de nove anos e partia para o ofício: vigiar os concentrados de Senador Pompeu. Voltava para casa contando sobre "lagartixas entrando na boca dos defuntos, tudim inchado por causa da fome". Alguns guardas eram tão temidos que viravam sinônimo de "coisa ruim". Caso do cabo Félix, que acabou nomeando o feijão servido ali, duro feito pedra da caatinga.
Senador Pompeu, à primeira vista, é uma cidade com problemas e hábitos corriqueiros; adolescentes tiram selfies na sorveteria, e casas metade verde, metade rosa exibem na fachada propagandas políticas pintadas à mão. Mas ali, como dona Carmélia, muitos se esforçam para lembrar o passado.
Em um blog que leva seu nome, Valdecy Alves, 51, apresenta-se em maiúsculas: ADVOGADO MILITANTE E MILITANTE DOS MOVIMENTOS SOCIAIS, com serviços prestados à Cáritas e ao Centro de Defesa dos Direitos Humanos Antonio Conselheiro. Filho pródigo de Senador Pompeu, hoje em Fortaleza, voltou à cidade natal para a romaria de 9 de novembro.
Com início marcado para as 4h30 daquele domingo, em frente à igreja, o cortejo reúne netos, pais e avós, todos de branco, para homenagear "as almas penadas da barragem", mortas no campo de concentração. Hoje, segundo a crendice do povo, elas viraram santas que atendem a promessas, numa versão, local e diminuta, do culto ao padre Cícero.
Na véspera, Valdecy Alves nos levara aos arredores da barragem onde os retirantes foram enclausurados. Existe ali um cemitério, ponto de chegada da romaria. O espaço é simbólico: foi erguido sobre uma das valas comuns, onde "até 40 defuntos eram sepultados sem atestado de óbito, em covas rasas o bastante para que urubus e cães cavassem e comessem os restos", diz Alves.
O cemitério, um quadrilátero de 1.089 m², tem no centro uma capela. À sua frente, visitantes acendem velas e empilham simbólicas garrafas d'água de 500 ml. Na entrada, alguns santinhos políticos e latas de cerveja se acumulam diante de duas mudas de árvore. Lê-se nos vasos de cimento: "Fale a Deus o tamanho do seu problema".
| Isadora Brant/Folhapress | ||
| Cemitério em Senador Pompeu |
Em sua moto preta com o rosto de Jesus estampado na buzina, Francisco de Assis, 48, chega ao local para pintar de branco os muros do cemitério. Ele é um dos que -garante- foram ouvidos pelos santos. Para quitar seu carnê espiritual, caminhou por uma hora, descalço, até o cemitério. Valdecy Alves frisa: "De cada dez pessoas que você encontrar nas ruas, metade deve promessa aqui".
A história do campo de concentração de Senador Pompeu já era ligada à seca desde antes desse destino infame. Em 1919, ingleses ganharam uma concorrência para levantar no local uma barragem para sanar os efeitos da escassez de chuvas. Por falta de verbas, as obras pararam. Em 1932, o governo integrou ao campo o casarão que fora construído para servir de morada aos estrangeiros.
*
DESTERRO Nos 600 km que cruzou, a reportagem foi acompanhada pela curadora Beatriz Lemos, 33, e pelo artista plástico Ícaro Lira, 28. Fortalezense radicado em São Paulo, Lira lançou na Bienal da Bahia, em maio, seu projeto "Desterro", que começou com Canudos e agora recupera o passado dos campos de concentração do Ceará. "Meu papel é trazer à tona o processo de apagamento oficial do Estado", diz o artista.
ANNA VIRGINIA BALLOUSSIER, 27, é jornalista da Folha. Assina o blog "Religiosamente" no site do jornal.
ISADORA BRANT, 28, é repórter fotográfica da Folha e produz, em sua Vibrant Editora, publicações independentes, como zines e fotolivros.
17.11.14
A situação dá arrepios... de pessimismo.
Situação de escravidão atinge mais de 35 milhões de pessoas no mundo, diz organização
ADRIANA CARRANCA*, ENVIADA ESPECIAL / LONDRES - O ESTADO DE S. PAULO
17 Novembro 2014 | 13h 50
Cinco países – Índia, China, Paquistão, Uzbequistão e Rússia – concentram 61% dos escravizados, diz Walk Free Foundation
Pelo menos 35,8 milhões de pessoas vivem em situação de escravidão no mundo, de acordo com o Index de Escravidão Global, da organização Walk Free Foundation, divulgado ontem em Londres. Cinco países – Índia, China, Paquistão, Usbequistão e Rússia – concentram 61% dos escravizados. Somente 10% deles são traficados para o exterior; a maioria é mantida em cativeiro dentro do próprio país, principalmente para trabalho forçado e 25% do total de vítimas para exploração sexual.
As mulheres estão mais expostas a abusos. “Praticamente todas as mulheres mantidas como escravas reportam terem sido vítimas de abusos sexuais, mesmo que traficadas para outro propósito”, diz o pesquisador Kevin Bales, responsável pelo estudo.
O Brasil aparece entre os 30 países com menor índice de escravidão por habitantes, mas está em 32.º lugar no ranking de 167 países em números absolutos, com mais de 150 mil pessoas vivendo em condição de escravos, atrás da África do Sul e da maioria dos vizinhos da América Latina, como Argentina, Chile, Colômbia, Peru, Venezuela.
O relatório menciona iniciativas do Brasil para o combate à escravidão e ao tráfico de pessoas, como o Pacto Nacional pela Erradicação do Trabalho Escravo e a “lista suja” do governo, que traz a identificação de empresas flagradas usando trabalho escravo diretamente ou em sua cadeira de fornecedores e bloqueia o acesso delas a crédito, entre outros tipos de sanções. Também cita dois novos decretos à Constituição: o primeiro, aprovado em maio, que determina o confisco de terras de proprietários flagrados explorando trabalhadores ilegalmente, e o segundo dando direitos trabalhistas a empregadas domésticas. Mas faz uma ressalva: “centenas de milhares de brasileiros são sujeitos ao trabalho forçado e exploração sexual”.
Os pesquisadores ligam a escravidão moderna com o fim da Guerra Fria, quando as fronteiras foram abertas, e a padronização do sistema financeiro global nos anos 80, o que permitiu a transferência de capital entre países. “De repente, isso permitiu movimentar o capital de um lado a outro mais rápido do que as pessoas podiam se movimentar. Fábricas começaram a ser transferidas para países onde a mão de obra era mais barata e onde as leis são mais frágeis ou inexistentes”, diz Bales. “Criminosos passaram a movimentar com mais facilidade não só dinheiro e drogas, mas pessoas para atender a essa demanda.”
Segundo Bales, a escravidão nunca foi extinta. Mais do que isso, houve um colapso do preço de escravos no mundo, se comparado com o tempo quando a escravidão era legalizada. “Um escravo naquela época, se comprado hoje, custaria em moeda atual algo entre US$ 40 e 50 mil. Era um produto caro, muitas vezes usados para investimento. Após os anos 60, com a explosão da população, você inundou o mercado com a oferta desse ‘produto’. O número de pessoas que se tornou vulnerável à escravidão explodiu e o valor para escravizar uma pessoa caiu para US$ 90, em média. É o que custa hoje para ter controle de uma pessoa. Esse custo normalmente envolve o transporte e os custos com moradia e comida para mantê-lo vivo.”
A pobreza extrema leva milhões de pessoas em todo o mundo a trabalhar apenas em troca de comida e moradia, com um agravante: “O desespero, a fome aumentam a oferta desse tipo de mão de obra. São pessoas que não valem nada, do ponto de vista do traficante, porque é mais barato simplesmente comprar outra pessoa do que “recuperar” aquela (em caso de doença, por exemplo), então as condições de vida dadas a essas pessoas é terrível e se eles não suportam trabalho são simplesmente trocados.”
A explosão da população, a pobreza extrema e a vulnerabilidade (guerra civil ou mudanças climáticas que levam as pessoas a migrar, deixando tudo para trás, para outras regiões onde não terão direitos nem empregos, caso dos imigrantes ilegais e refugiados) são combustíveis para o tráfico de pessoas e a escravidão. “A escravidão é uma doença que se alastra como uma epidemia”, diz Bales.
Uma pessoa é considerada escrava quando está em posse de alguém ou um grupo que tem o controle sobre sua movimentação; ela é tratada como propriedade e privada de liberdade, por meio de violência e coerção, com o objetivo de explorá-la. O conceito, usado para o estudo e para a elaboração de leis em muitos países, no entanto, desconsidera outras formas precárias ou ilegais de trabalho, como pelo menos 258 mil crianças brasileiras, entre 10 e 17 anos, que fazem o serviço doméstico em casas de famílias, sem direito trabalhista algum.
* A repórter viajou a convite da Fundação Thomson Reuters
15.2.14
16.11.13
PARTE DO VOTO DO MINISTRO LUÍS ROBERTO BARROSO NOS SEGUNDOS EMBARGOS DE DECLARAÇÃO NO JULGAMENTO DO MENSALÃO.
"(...) No tocante ao direito penal, este processo também pode se transformar em um momento de reflexão. É uma área em que o Direito brasileiro está desarrumado, tanto do ponto de vista filosófico quanto normativo. Quanto de direito penal? Para quem o direito penal?
Temos milhares de condenados por pequenas quantidades de maconha, e pouquíssimos condenados por golpes imensos na praça. Para ir preso no Brasil, é preciso ser muito pobre e muito mal defendido. O sistema é seletivo, é um sistema de classe. Quase um sistema de castas. (...)"
Quem é Rafael Braga Vieira – em busca da resposta - Postado por Ize em dezembro 10, 2013
Mais de cinco meses depois de ter sido preso por portar água sanitária e Pinho Sol perto de um protesto no centro do Rio de Janeiro, o morador de rua Rafael Braga Vieira recebeu a primeira visita na sexta-feira passada, dia 6, no complexo penitenciário de Japeri. Só então ficou sabendo da notícia que circulava há três dias pelos jornais de todo o país: fora condenado a 5 anos e 10 meses em regime fechado pelo “crime”.
A visita era a advogada Raphaela Lopes, do Instituto de Defensores de Direitos Humanos, que assumiu a sua defesa e vai recorrer. Rafael estava cabisbaixo, amedrontado e ficou perplexo com a condenação. Depois do encontro, a advogada reforçou sua tese: a polícia e a justiça ignoraram direitos e princípios básicos pelo fato de Rafael ser morador de rua, pobre e negro – uma pessoa sem defesa ou rede de apoio.
O exemplo mais gritante é a imagem de sua prisão: Rafael foi algemado pelos pés, uma prática de humilhação que deveria estar banida das penitenciárias do país. “Até o uso de algemas no braço hoje é condenado pelo STF (Supremo Tribunal Federal), o policial só pode algemar se o preso oferecer risco. Imagina nos pés? É desumano, prática do século retrasado, o que se fazia com os escravos”, argumenta Raphaela. A foto foi publicada pelo site Rio na Rua, que faz cobertura independente dos protestos.
Para tentar responder a pergunta do post passado “Quem é Rafael Braga Vieira?“e entender o que essa condenação pode representar para o Brasil, o blog entrevista a advogada e única pessoa a visitá-lo até agora.
Como será a defesa de Rafael?
Ele foi condenado por porte de material explosivo, mas foi flagrado com duas garrafas plásticas. O coquetel molotov necessariamente precisa de garrafa de vidro, é assim que a fagulha se espalha. O juiz diz ainda que uma das garrafas tinha quantidade mínima de álcool e o condena por uma suposta intenção de incendiar. Essa é uma a arbitrariedade sem base jurídica. Assumir que a pessoa tem a intenção de incendiar só porque ela está andando com uma garrafa que contém álcool?
O que ele tem a dizer sobre os protestos?
Nada. Ele não estava na manifestação. Ele não tem nenhum tipo de ligação com as manifestações. Foi a pessoa errada na hora errada.
Poderia falar um pouco sobre quem é Rafael Braga Vieira?
Ele é negro, tem 25 anos, cursou até a 5a série, tem 6 irmãos, a mãe dele mora na Penha ele trabalha em brechós na Praça XV de Novembro. É complicado descrever alguém que se conheceu na cadeia, a pessoa está com medo, o tempo todo recebendo ordens, ele mal olhava nos nossos olhos.
Como ele reagiu à notícia da condenação?
Ele ficou surpreso com a rigidez e por ser em regime fechado. Nos pediu para contatar a sua mãe, que ainda não está sabendo da prisão.
Qual sua avaliação desse caso?
O juiz tira dele direitos básicos, como o benefício da dúvida. No direito penal, há a presunção da inocência. Ou seja, se há alguma dúvida, é preciso dar ao réu o benefício da dúvida. O Rafael teve esse benefício negado, como se certos princípios não se aplicassem a ele. Na minha avaliação, ele não foi condenado por um crime, ele foi condenado por ser morador de rua, pobre, negro. Isso fala muito sobre o atual cenário que vivemos no Rio de Janeiro, onde cresce um modelo de cidade excludente, para poucos, elitista. Pessoas como o Rafael não são desejadas nesse cenário. Esse discurso pode soar radical, mas é a forma como as coisas acontecem, como a argumentação contra ele é construída na sentença.
O que esse caso diz sobre o modo como o estado e a justiça lidam com os protestos?
Existe uma pressão para que pessoas sejam responsabilizadas pelo quebra-quebra e vandalismo. As pessoas detidas servem como bode expiatório. O que me intriga é a resposta do estado aos protestos: não há diálogo, abertura para entender o motivo da insatisfação. O estado só responde com mais repressão e criminalização. Que democracia é essa? As pessoas estão protestando dentro de um contexto político, mesmo aquelas que estão quebrando as coisas. O Rio tem um contexto violento de cerceamento e exclusão das populações pobres. A forma como a cidade está sendo preparada para os megaeventos é uma pauta política, mas não há disponibilidade do estado em dialogar.
A condenação de Rafael pode servir como um recado para assustar futuras manifestações?
Sem dúvida. Principalmente pela pena tão alta. Mais uma vez, a reação do estado é a criminalização.
Tem mais alguma coisa a acrescentar sobre Rafael?
Nós fizemos exatamente essa pergunta a ele “tem alguma coisa que você queira falar pras pessoas lá fora?”. Ele não disse nada. Só frisou a vontade de que sua mãe ficasse sabendo.
Fonte: http://br.noticias.yahoo.com/blogs/3-por-4/quem-%C3%A9-rafael-braga-vieira-em-busca-da-133032137.html#more-id
Ele ficou surpreso com a rigidez e por ser em regime fechado. Nos pediu para contatar a sua mãe, que ainda não está sabendo da prisão.
Qual sua avaliação desse caso?
O juiz tira dele direitos básicos, como o benefício da dúvida. No direito penal, há a presunção da inocência. Ou seja, se há alguma dúvida, é preciso dar ao réu o benefício da dúvida. O Rafael teve esse benefício negado, como se certos princípios não se aplicassem a ele. Na minha avaliação, ele não foi condenado por um crime, ele foi condenado por ser morador de rua, pobre, negro. Isso fala muito sobre o atual cenário que vivemos no Rio de Janeiro, onde cresce um modelo de cidade excludente, para poucos, elitista. Pessoas como o Rafael não são desejadas nesse cenário. Esse discurso pode soar radical, mas é a forma como as coisas acontecem, como a argumentação contra ele é construída na sentença.
O que esse caso diz sobre o modo como o estado e a justiça lidam com os protestos?
Existe uma pressão para que pessoas sejam responsabilizadas pelo quebra-quebra e vandalismo. As pessoas detidas servem como bode expiatório. O que me intriga é a resposta do estado aos protestos: não há diálogo, abertura para entender o motivo da insatisfação. O estado só responde com mais repressão e criminalização. Que democracia é essa? As pessoas estão protestando dentro de um contexto político, mesmo aquelas que estão quebrando as coisas. O Rio tem um contexto violento de cerceamento e exclusão das populações pobres. A forma como a cidade está sendo preparada para os megaeventos é uma pauta política, mas não há disponibilidade do estado em dialogar.
A condenação de Rafael pode servir como um recado para assustar futuras manifestações?
Sem dúvida. Principalmente pela pena tão alta. Mais uma vez, a reação do estado é a criminalização.
Tem mais alguma coisa a acrescentar sobre Rafael?
Nós fizemos exatamente essa pergunta a ele “tem alguma coisa que você queira falar pras pessoas lá fora?”. Ele não disse nada. Só frisou a vontade de que sua mãe ficasse sabendo.
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