O HOLOCAUSTO BRASILEIRO

Ah... Meu pessimismo e ateísmo estavam, vamos dizer, arrefecidos... Coube à "cordialidade" do brasileiro acordá-los. Barbacena nunca mais!

Leituras que fortalecerão o nosso pessimismo.

  • "As Intermitências da Morte" de Saramago
  • "Os Ratos" de Dyonélio Machado

14.8.12

The World Press Photo archive


The World Press Photo archive



2012, World Press Photo of the Year, Samuel Aranda




WORLD PRESS PHOTO OF THE YEAR 2011
Fatima al-QAWS embala o seu filho Zayed (18), que está sofrendo os efeitos do gás lacrimogêneo depois de participar de uma manifestação de rua, em Sanaa, Iémen, em 15 de Outubro.

 

9.8.12

Tem um povo que não esquece os horrores da guerra atômica.


Japão lembra os 67 anos do lançamento das bombas atômicas



6.8.12

Agosto do sangue negro.


“Hiroshima e Nagasaki: um agosto para nunca esquecer!”


A Associação Paulista de Medicina (APM) promove, de 13 de agosto a 13 de setembro, a exposição itinerante “Hiroshima e Nagasaki: um agosto para nunca esquecer!” em mais uma de suas regionais, localizada na cidade de Marília.

APM – Regional de Marília
Data: 13 de agosto a 13 de setembro de 2012

Abertura: 10 de agosto de 2012, sexta-feira às 20h
Visitação: de segunda a sexta-feira, das 8h às 18h
Endereço: Avenida Pedro de Toledo, 179 – Marília – SP

17.7.12

Victor Vasarely - Geométrico / Tipo de gravura - Serigrafia



Angustiado e pessimista.


Arnaldo Jabor
Início do conteúdo

As ideias não correspondem mais aos fatos

17 de julho de 2012 | 3h 08
Arnaldo Jabor
O tempo atual é Renascença ou Idade Média? Os acontecimentos estão inexplicáveis, pois a barbárie das coisas invadiu o mundo dos homens. Temos um acesso a informação infinita, mas nada se fecha em conclusões coerentes, nada acaba, nada se define.
O socialismo não deu certo, o capitalismo global não trouxe paz nem progresso, tudo que depende da vontade dos homens e de seus sonhos de controle, não chega a um final feliz. As coisas têm vida própria e seus criadores não controlam mais os produtos. O mundo écada vez mais uma tumultuosa marcha de fatos sem causa, de acontecimentos sem origem. Cada vez temos mais ciência e menos entendimento. As teorias não deram certo e percebemos hoje que Kafka e escritores do início do século 20, como Mann, Musil, depois Beckett e Camus sacaram o lance. Esperando Godot é mais profundo e profético que 100 anos de ilusões políticas.
Hoje, viramos objetos de um "sujeito" imenso, sem nome, sem olho, misterioso, que talvez só entendamos depois do tempo esgotado, quando for tarde demais. Essa é a sensação dominante.
Por que estou com essas angústias filosóficas hoje? Bem... porque no Brasil também estamos diante do dilema: Renascença ou Idade Média, progresso ou regresso?
A rapidez do mundo atual, para o bem e mal, nos deixa para trás. Vivemos uma modernidade veloz e falamos discursos antigos. As ideias não correspondem mais aos fatos, como cantou Cazuza.
Hoje as palavras que eram muros de arrimo foram esvaziadas de sentido. Uma palavra que era pau para toda obra: "futuro". Que quer dizer? Antes, 'futuro' era um lugar onde chegaríamos um dia, que nos redimiria de nossos sofrimentos no presente. Agora o termo 'futuro' tem uma conotação incessante, como se já estivéssemos nele. Estamos com saudades do presente, que nos escapa como um passado. O presente se esvai e o futuro não para de 'não' chegar.
Outra palavra: "Felicidade." Ser feliz hoje é excluir o mundo em torno. Ser feliz é uma vivência pelo avesso, pelo "não". Ser feliz é não ver, não pensar, é não se deixar impressionar pelas desgraças do País ou dos outros.
Outra: "Miséria." A miséria sempre nos foi útil. Diante dela tínhamos a vantagem, a riqueza da "compaixão". Era doce sentir pena dos infelizes. Hoje, diante das soluções impossíveis, temos uma espécie de raiva, de irritação nobre, bem 'ancien regime' contra os desgraçados. Ficamos humilhados diante da impotência de soluções. O pobre virou um 'estraga-prazeres'. E os nomes?
Que nome daremos ao desejo de extermínio que brota nos cérebros reacionários? Exterminar bandidos - e excluídos também?
E que nome daremos à paralisia da política brasileira, ao imobilismo das reformas, o absurdo desinteresse pelos dramas do País? Que nome daremos ao ânimo do atraso, à alma de nossa estupidez? Que medula, que linfa ancestral energiza os donos do poder do atraso, que visgo brasileiro é esse que gruda no chão os empatadores do progresso e da modernização? Vivemos sob uma pasta feita de egoísmo, preguiça, escravismo colonial. Que nome dar a essa gosma que somos?
Que nome dar às taras de nossos intelectuais incompetentes? São dois tipos básicos que surgem: o gênio inútil e o neocretino. O gênio inútil sabe tudo e não faz nada. O neoidiota tem certezas sem saber nada.
E que nome daremos a esse bucho informe que a miséria está criando nas periferias?
Como chamar esta nova língua, este novo "bem" dentro do "mal"? Não é mais "proletariado" ou "excluídos" apenas. Surge uma razão dentro da loucura. Parece um país paralelo esfarrapado, com cultura própria, com uma ética produzida pela fome e ignorância.
E na política? Quem somos, o que somos? Neoliberais, velhos radicais, neoconservadores, progressistas reacionários, direita de esquerda ou, hoje no poder, 'esquerdismo de direita'?
E a palavra chave de hoje: 'democracia.' Que é isso? Que quer dizer? No Brasil, democracia é lida como tolerância, esculacho, zona geral. Democracia, que é o único sistema 'revolucionário' a que devemos aspirar, é a melhor maneira de espatifar o entulho arcaico, corrupto, patrimonialista que o Estado abriga. A única revolução que se faria no Brasil seria o enxugamento de um Estado que come a nação, com gastos crescentes, inchado de privilégios e clientelismo, um Estado que só tem para investir 1,5 do PIB. A única revolução seria administrativa, apontada na educação em massa, nas reformas institucionais, já que, graças a Deus, a macroeconomia foi herdada do FHC e o Lula teve a esperteza de mantê-la, graças ao Palocci, que salvou o País.
Só um choque de livre empreendimento pode mudar o Brasil. Mas esta evidencia é vista com pavor. Como aceitar o óbvio, que o Estado, nas últimas décadas, congestionado, moribundo, só tem impedido o crescimento? Isso vai contra os velhos dogmas dos intelectuais... A maioria dos críticos sociais e culturais prefere morrer a rever posições. O recente caso do Paraguai é vergonhoso. Protestam pelo 'golpe', como se o Lugo fosse um grande líder, quando todo mundo sabe que era uma espécie de Berlusconi tropical; ignoram o fato de que a Constituição deles previa um 'impeachment' como esse e abrem caminho para que o fascista Chávez comece a provocar o Mercosul junto com a espantosa Cristina Botox que está destruindo a Argentina. Como perguntou alguém outro dia: 'Quando nossos intelectuais de esquerda vão denunciar pelo menos a Coreia do Norte?'
A verdade é que para eles a democracia parece lenta e ineficaz. Como disse o Bobbio: O ódio à democracia une a esquerda e direita. Querem um autoritarismo rápido, que mude "tudo isso que está aí". Esse episódio do Paraguai, que a presidente Dilma visivelmente teve de aderir de má vontade, por imposição dos 'cucarachas' fascistas, aponta para uma restauração da velha febre anti-imperialista que justifica e absolve a incompetência da América Latina. E tudo isso apoiado por picaretas neomarxistas como o showman Slavoj Zizek e alguns babacas daqui.
A América Latina está com fome de autoritarismo, que é bem mais legível para os paranoicos.

Ela faz parte do sistema. Sem ela o ser humano não sobreviveria na face da terra, sob qualquer sistema... político, econômico, social. É uma pena.

25.6.12

Um pouco de Educação.

Silêncio.
Idos dos anos 90, século passado. O Brasil abria seu coração na esperança de mudar a sua cabeça: os nós da ditadura, finalmente, começavam a ser desatados pela democracia renascida. O primeiro choro da criança, parida em 1985, demorou a atingir os ouvidos da sociedade que a concebeu. E o choro, feito alegria, veio forte com as primeiras eleições diretas para presidência da República.
A liberdade há-de vir quando os canalhas que usurpam o poder desaparecerem do cenário. Tal cenário há-de mostrar uma educação de qualidade - radiante e generosa - que alimentará a democracia brasileira para sempre.
Naqueles idos, participei de muitas atribuições de aulas para professores da rede pública em Marília. O sistema era democrático, acredito, sem vícios.
Junho de 2005. Passados mais de quinze anos, o país ainda escuta o choro da democracia, ora de alegria, ora de tristeza. A criança engatinha, tenta levantar-se, equilibra-se, cai, mas continua firme em sua intenção de não morrer.
Retorno para um salão da diretoria de ensino da região de Marília, buscando mais uma vez o objetivo deixado lá atrás. O dia é de atribuição de aulas para os professores da rede pública.
Nada mudou. O sistema é o mesmo: democrático, acredito, sem vícios.
Ainda um sonho, a educação de qualidade perde-se nos escaninhos da burocracia elitista. Perde-se nos discursos empolados dos intelectuais da hora. Perde-se nas entranhas do poder corrupto. Medrosa, opaca e sovina vai se escondendo para, quem sabe, não mais ser encontrada.
Surge uma centelha de esperança. Somos na sala cerca de cem almas que buscam o mesmo objetivo: ensinar.
A banca adentra o salão. Ao lado posicionam-se alguns representantes das escolas. O lugar é ótimo, amplo, arejado, limpo. As carteiras são novas e grandes, confortáveis. Vejo um sistema de som e vídeo moderno ao lado da banca. Tudo me leva a crer que alguma coisa tenha mudado no século vinte e um. Ledo engano.
Algazarra. Primeira palavra que me lembro para descrever o ambiente. Não me convenço e tomo o dicionário buscando o termo correto. Ali estão algaravia, algaraviada, balbúrdia, assuada, e chego a vozearia, s.f., ato de vozear, falar em voz alta; gritar; clamor de muitas vozes juntas.
A palavra vozearia expressa exatamente a realidade daquele ambiente recheado de professores, em suas maioria, mulheres. Nada contra, mas o substantivo é feminino! Mera coincidência?!
Pois bem. Naquelas reuniões de 1991 o ambiente era o mesmo: a vozearia dava o tom à reunião, nada mudou.
Confesso que me senti desrespeitado naquele e neste momento em que buscava e busco a realização de um sonho. Encontro um ambiente indisciplinado, feito por pessoas que buscam o mesmo caminho.
Exigimos disciplina dos alunos e somos indisciplinados. Somos uma vozearia total. Não respeitamos a banca que organiza o evento. A coordenadora esgoela palavras e o vozerio diminui. Os professores se apresentam para a atribuição, mas o vozeamento - para não dizerem que sou preconceituoso, utilizo um s.m. - retorna no tom da vozearia anterior, só que mais forte.
Retomo a primeira pessoa para me concentrar na atribuição. Impossível, melhor tentar entender o que ocorre.
As pessoas estão ali para, talvez, conversarem ou se comunicarem. Afinal não somos animais que seguem a vida solitários, mesmo em bandos. Ocorre que somos seres que não nos respeitamos como tal. A indisciplina é filha desse desejo de comunicação a todo custo. Necessitamos de conversa. Precisamos de falar mais alto para que nos ouçam. O professor não consegue calar-se. A vozearia é o reflexo do mundo atual da educação.
No mínimo, professores mal-educados (no sentido de malcriado) formam alunos idênticos, propiciam algaravia nas salas de aula, fomentam o desrespeito às pessoas e coisas. Estamos perdendo o tempo que passa para nós e para as crianças e jovens que, talvez, por isso, nos detestem.
Quem sabe o silêncio possa nos colocar no caminho de uma escola onde se busque a excelência do aprendizado. Um silêncio revelador em que cada professor repense e retome o seu papel de educador, formador de opinião, modelador de cidadãos, criador de almas. Um silêncio que viabilize a realização dos sonhos de todos, tendo o professor como o principal construtor da educação ideal e por consequência o principal construtor da democracia brasileira. Uma democracia tal qual uma casa indestrutível em que habite ali, simplesmente, uma criança que não chore, jamais...


29.5.12

"Nós fotografamos crianças com menos de 10 anos de idade, com suas mãos amarradas e mortas com tiros à queima-roupa, a 10 cm de distância, apenas 10 cm. Eles cortaram seus pescoços com facas, não todo o pescoço, mas eles fizeram um buraco no pescoço, um buraco nos olhos."

Enterro de vítimas de massacre em Houla (AFP/Getty Images) Funeral em massa de vítimas do massacre em Houla (foto cedida à Reuters)
Corpos de vítimas de massacre na Síria (AFP)Corpos de mortos no massacre de Hula são vistos perfilados em foto tirada por civil sírio. Foto: Shaam News Network/AP

Os mesmos que pedem a paz na Síria, são os mesmos que vendem armas às nações. Eles fazem parte do conselho de Segurança da ONU que é composto por 15 membros, sendo cinco membros permanentes com poder de veto: USA, França, Reino Unido e China. Morde e Assopra é o lema da turma que manda nos destinos dos terráqueos. Eles são os maiores fabricantes de armas e não escolhem seus compradores, sejam eles iraquianos, vietamitas, colombianos, brasileiros e outros tantos. A paz é, portanto, o seu maior inimigo, Vejam o que ocorreu na Síria, no domingo, dia 27 de maio de 2012:

A BBC conversou com sobreviventes e testemunhas do massacre na aldeia de Taldou, em Houla, na Síria, no qual pelo menos 108 pessoas foram mortas.
Algumas testemunhas quiseram permanecer anônimas, e seus depoimentos, obtidos por telefone, não podem ser verificados de forma independente.
O governo nega as acusações diz que os ataques foram obra de "terroristas armados".Testemunhas dizem que o ataque foi perpetrado pelo Exército sírio e pela "Shabiha", uma milícia civil sectária que apoia o regime do presidente Bashar al-Assad.
Veja abaixo os depoimentos:

Hamza Omar, ativista de oposição em Houla

"Os membros da milícia 'Shabiha' atacaram as casas. Eles não tiveram compaixão. Nós fotografamos crianças com menos de 10 anos de idade, com suas mãos amarradas e mortas com tiros à queima-roupa, a 10cm de distância, apenas 10 cm. Eles cortaram seus pescoços com facas, não todo o pescoço, mas eles fizeram um buraco no pescoço, um buraco nos olhos."

Rasha Abdul Razaq, sobrevivente

"Nós estávamos em casa, eles entraram, a 'Shabiha' e as forças de segurança, eles entraram com fuzis Kalashnikov e rifles automáticos. (**Kalashnikov A arma mais assassina da História - AK-47, sigla da denominação russa Avtomat Kalashnikova odraztzia 1947 goda ("Arma Automática de Kalashnikov modelo de 1947"), é um fuzil/espingarda de assalto de calibre 7,62 x 39 mm criado em 1947 por Mikhail Kalashnikov e produzido na União Soviética pela indústria estatal IZH. Surgiu na União Soviética logo após o fim da Segunda Guerra Mundial, sendo o fuzil mais fabricado de todos os tempos. Estima-se que o número de exemplares produzidos tanto na Rússia como sob licença em países como a BulgáriaChinaHungriaÍndiaCoréia do NorteRomênia entre outros, chegue a impressionante cifra de 90 milhões.)
Nós perguntamos a eles o que estava acontecendo, e eles nos disseram para entrar. Nós dissemos: 'O que foi? O que vocês querem?'. Eles disseram: 'Mostrem tudo, o que vocês estão escondendo'. E nós dissemos: 'Nós não estamos escondendo nada'.
Eles nos levaram para um quarto e atingiram meu pai na cabeça com uma coronhada e atiraram nele, direto no queixo.
Eles nos levaram para dentro e nos disseram para ficarmos todos juntos, em um canto. Um homem começou a atirar para o alto, então nós todos nos escondemos atrás da minha mãe. Nós éramos cerca de 15 pessoas.
Então eles abriram fogo. Depois que eles atiraram contra nós, eles começaram a pisar em nós, e um dos homens pediu aos outros para checar se nós estávamos todos mortos. Então eles saíram e começaram a atirar para o alto.
Nós éramos oito irmãos, incluindo eu, e minha cunhada e seu filho. Ela estava grávida de seis meses. Também estavam conosco meu pai, a mulher do meu tio e sua filha, nossa vizinha e seus três filhos, minha tia e suas duas filhas. Uma delas ficou apenas ferida, e está aqui comigo agora, ela tem um mês de idade. A outra morreu. Todos nós estávamos na casa.
Eu sobrevivi com minha mãe, a menina de um mês de idade e minha irmã. Eles atiraram contra nós, mas nós sobrevivemos.
O que vai acontecer conosco? Quando ficamos sabendo que o Exército e as forças de segurança estão vindo, nós corremos para as ruas, nós estamos com medo de que eles repitam o que fizeram conosco no outro dia.
Havia cem casas na vizinhança, eles mataram todos os que estavam dentro. Eles entraram nas casas das pessoas e abriram fogo, e mataram todos."

Mãe de Rasha Abdul Razaq, sobrevivente

"Ele (um dos atacantes) disse: 'Nós somos das montanhas, de Fulla'. Então eu disse: 'Somos vizinhos então. Nós não temos terroristas aqui'. E ele disse: 'Vocês são os terroristas'.
Eles acharam que eu estava morta. Foi graças a Deus que eu sobrevivi. Ele estava atirando contra meus filhos e gritando. Por favor, consiga alguma proteção para mim e para minha filha. Nós estamos agora ficando nas casas de diferentes pessoas. Nós temos medo que eles acabem conosco."

Anônima, sobrevivente

"Nós estavamos abrindo nossas casas para eles, nós achavamos que eles eram do Exército e que estavam fazendo inspeções.
Um deles me disse: 'Volte para dentro, você é a próxima'. Eu estava com meu marido e meus filhos. Então peguei o comprovante de serviço militar de meu marido, achei que talvez assim eles talvez não nos incomodassem. Mas eu só sobrevivi porque um deles atirou contra o outro, por engano, e gritou: 'Preciso de ajuda, o pai foi ferido'. Isso os deixou ocupados, enquanto nós fugimos, em meio ao tiroteio, do Exército e da 'Shabiha'."

Anônima, sobrevivente

"Quando eles abriram a porta, eu ainda estava com eles na sala. Eu estava em pé, atrás da porta da sala de estar. Eles levaram meu irmão para fora. Eu me escondi no sótão. Tudo o que ouvi foram tiros, parecia que a casa inteira estava balançando.
Eu abri a porta e vi os corpos. Eu não conseguia reconhecer meus filhos e meus irmãos. Foi indescritível. Eu tenho três filhos, eu perdi três filhos. Eu estou tremendo, enquanto falo com você."

Um Mohammed, sobrevivente

"Nós fugimos na noite de sexta-feira… Eles estão nos atacando e matando pessoas… Nós fugimos pelas plantações, bombardeados aqui e ali. Não sei como conseguimos. Enquanto caminhavamos, atiradores miravam contra nós, nós nos escondemos nas plantações."

Um Abdullah, sobrevivente

"Bombardeios por todos os lados… Eu não tenho notícias da minha família. Por que vocês não estão intervindo? Os cadáveres estão se amontoando."

Akrama Bakour, do Exército Sírio Livre, em Houla

"Houve dois massacres. O primeiro aconteceu na estrada de Sadd e começou por volta das 14h30 de sexta-feira.
O segundo massacre aconteceu por volta das 23h, na estrada na entrada principal de Taldou, em frente ao posto de segurança militar.
Uma van, duas picapes e um grupo de motocicletas vieram da aldeia de Fulla – que apóia o regime –, na estrada entre Fulla e Taldou, a 500 ou 700 metros de Fulla.
Eles encontraram um pastor na entrada. Seu nome é Mahmoud al-Kurdi, e ele estava com sua nora e seus quatro netos. Eles atiraram contra eles, mataram todos, menos a nora. Ela foi ferida na coxa e na barriga, mas ainda está viva.
Então eles entraram na casa de Samir Abdul Razaq. Ele foi morto com seus filhos – Sawsan, Houda, Jouzila e Nada –, com sua nora, Halloum El Khlaf, grávida de seis meses, e o filho dela, Ala’a Abdul Razaq, a cunhada de Samir, Khaloud El Khalaf, e sua filha, Rahaf Al Hussein. Sua outra filha, Zahra Al Hussein, levou dois tiros, mas sobreviveu.
A mulher de Samir foi atingida a coronhadas e desmaiou, mas ainda está viva. Entre as vítimas nesta casa também estavam quatro crianças, filhas de Fadi al-Kurdi.
A próxima casa foi a de Qutayba Abdul Razaq. Ele sobreviveu, e sua filha de um ano de idade foi ferida. Ele perdeu a mulher e cinco filhos.
Todos esses de quem estou falando morreram a tiros. Eles foram reunidos em uma sala e mortos a tiros. Houve uma criança que teve a cabeça esfolada com uma faca. A faca foi encontrada entre os corpos, e nós temos fotos.
A terceira casa pertence a Nidal Abdul Razaq. Sua mulher e quatro de seus filhos foram mortos. Ele e um dos filhos sobreviveram.
Há várias outras vítimas. Adel Abdul Razaq, sua família inteira, mulher e seis filhos. Mustava Abdul Razaq, sua mulher, suas quatro filhas e sua nora. Ayman Abdul Razaq, todos os seus seis filhos e sua mulher foram mortos. Yaacoub Hussein Abdul Razaq, Mohammad Shafiq Abdul Razaq, Mohammad Abbara e sua filha Amina e a família dela, de sete pessoas.
Abdul Khalek Abdul Razaq, sua mulher e sua filha sobreviveram. Mas ele perdeu outros seis filhos, sua nora e os três filhos dela.
Abdul Rahman Abdul Razaq perdeu a mulher, cinco filhas e 11 netos, além das seis noras e quatro dos filhos delas. Na casa dele, 27 pessoas foram massacradas na mesma sala."




25.5.12

A família real britânica e o culto à imagem.


Londres prepara painéis gigantes para celebrar o jubileu da rainha (AP)


Bela imagem que esconde uma realidade apavorante:
"Londres prepara painéis gigantes para celebrar o jubileu da rainha."
E pensar que a família real britânica enriqueceu às custas da escravidão, às custas do imperialismo que sugou as riquezas de países como o Brasil e às custas de outras malvadezas...
Ah! O meu pessimismo encorpa cada vez mais. 

24.5.12

"Escrevo para desassossegar os meus leitores"



Para abalar as estruturas, Saramago recria o universo tenebroso do Antigo Testamento, numa crítica ácida que vai corroer as entranhas dos que acreditam em Deus.
Seguem  abaixo algumas frases do corajoso escritor português:
“Ao longo da História, as religiões, todas elas, sem exceção, fizeram à humanidade mais mal que bem.” 
“Deus não existe fora da cabeça das pessoas que nele creem.”
“O cérebro humano é um grande criador de absurdos. E Deus é o maior deles.”

9.8.11

Hiroshima e Nagasaki, sempre.




Hiroshima, meu amor

09 de agosto de 2011
Arnaldo Jabor - O Estado de S.Paulo
Outro dia tentei ver o filme Hiroshima Meu Amor de Alan Resnais e não consegui; parei no meio, porque as cenas documentais inseridas na estória são insuportáveis, mesmo para nossos olhos já acostumados a horrores.
Há 66 anos, em 6 e 9 de agosto de 1945 (anteontem), os americanos destruíram Hiroshima e Nagasaki. Todo ano me repito e escrevo artigos parecidos sobre a bomba nessa data. Mataram 150 mil pessoas em minutos e repetiram o feito, três dias depois. Escrevo sempre sobre esse fato histórico, sobre essa tragédia extra depois do holocausto, não para condenar um dos maiores crimes da humanidade, mas para lembrar que o impensável pode acontecer a qualquer momento. A situação no Oriente Médio, mesmo com a "primavera árabe" ainda meio ilusória, tende a um conflito entre o cada vez mais poderoso Irã e Israel, com o corrupto Paquistão atômico ao lado da Índia, também atômica. Sem falar no chiqueiro da Coreia do Norte.
Ou seja, vivemos ainda na era inaugurada por Hiroshima.
Lá e em Nagasaki, inaugurou-se a "guerra preventiva" como chamamos hoje.
Enquanto o holocausto dos judeus na Segunda Guerra fecha o século 20, o espetáculo luminoso de Hiroshima marca o início da guerra do século 21. O horror se moderniza, mas não acaba.
Auschwitz e Treblinkas ainda eram "fornos" da Revolução Industrial, eram massacres "fordistas", mas Hiroshima inventou a guerra tecnológica, virtual, asséptica. A extinção em massa dos japoneses no furacão de fogo fez em 1 minuto o trabalho de meses e meses do nazismo.
O que mais impressiona na destruição de Hiroshima é a morte "on delivery", "de pronta entrega", sem trens de gado humano, morte "clean", anglo-saxônica. A bomba americana foi considerada uma "vitória da ciência".
Os nazistas matavam em nome do ideal psicótico e "estético" de "reformar" a humanidade para o milênio ariano. As bombas americanas foram lançadas em nome da "Razão". Na luta pela democracia, rasparam da face da Terra os "japorongas", seres oblíquos que, como dizia Truman em seu diário:
"São animais cruéis, obstinados, traidores".
Seres inferiores de olhinho puxado podiam ser fritos como "shitakes"...
A bomba A agiu como um detergente, um mata-baratas. A guerra como "limpeza", o típico viés americano de tudo resolver, rápida e implacavelmente...
A destruição de Hiroshima foi "desnecessária" militarmente. O Japão estava de joelhos, querendo preservar apenas o imperador e a monarquia. Diziam que Hitler estava perto de conseguir a bomba - o que é mentira.
Uma das razões reais era que o presidente e os falcões da época queriam testar o brinquedo novo. Truman fala dele como um garoto: "Uau! É o mais fantástico aparelho de destruição jamais inventado! Uau! No teste, fez uma torre de aço de 60 metros virar um sorvete quente!...". O clima era lúdico e alucinado... tanto que o avião que largou a bomba A em Hiroshima tinha o nome da mãe do piloto na fuselagem - "Enola Gay" -, esse gesto de carinho derreteu no fogo 150 mil pessoas. Essa foi a mãe de todas as bombas, parindo um feto do demônio.
Os americanos queriam vingar Pearl Harbour, pela surpresa de fogo, exatamente como o ataque japonês três anos antes. Queriam também intimidar a União Soviética, pois começava a Guerra Fria; além, claro, de exibir para o mundo um show "maravilhoso" de som, luz e fúria, uma superprodução em cores do novo Império.
O espantoso também é que o holocausto sujou o nome da Alemanha (até hoje), mas Hiroshima soa como uma vitória tecnológica "inevitável". Na época, a bomba explodiu como um alívio e a opinião pública celebrou tontamente. Nesses dias, longe da Ásia e Europa, só havia os papéis brancos caindo como pombas da paz na Quinta Avenida, sobre os beijos de amor da vitória. Naquele contexto, não havia conceitos disponíveis para condenar esse crime hediondo. A época estava morta para palavras, na vala comum dos detritos humanistas.
Hoje, a época está de novo morta para palavras, insuficientes para deter ou mesmo descrever os fatos.
Agora, não temos mais a Guerra Fria; ficamos com a guerra quente do deserto - a mais perigosa combinação: fanatismo religioso e poder atômico. Vivemos dois campos de batalha sem chão; de um lado a cruzada errada do Ocidente, apesar de Obama, que foi contra e hoje tem de resolver os crimes do Bush.
Do outro lado, temos os homens-bomba multiplicados por mil. E eles amam a morte.
Hoje, já há uma máquina de guerra se programando sozinha e nos preparando para um confronto inevitável no Oriente Médio. Estamos num momento histórico onde já se ouvem os trovões de uma tempestade que virá. Os mecanismos de controle pela "razão", sensatez, pelas "soft powers" da diplomacia perdem a eficácia. Instala-se um progressivo irracionalismo num "choque de civilizações"; sim, sei do simplismo da análise do Huntington em 93, mas estamos diante do simplismo da realidade, formando uma equação com mil incógnitas impossíveis de solucionar. Como dar conta da alucinação islâmica religiosa com amor à morte, do Paquistão, Índia, Israel, do Irã dominado por ratos nucleares em breve, da invencibilidade do Afeganistão, com a hiperdireita de Israel com Bibi, com o Hamas ou o Hellzsbolah que querem impedir o "perigo da paz"? E agora, com a súbita vitória dos tea parties na América e a porrada que deram no Obama?
"There is a shit-storm coming" - disse Norman Mailer uma vez.
A crença na razão ocidental foi ferida por dois desastres: o 11 de Setembro e a era Bush-Cheney, que pode renascer agora. A caixa de Pandora que Bush abriu nunca mais se fechará.
Sente-se no ar o desejo inconsciente por tragédias que pareçam uma "revelação". Historicamente, sempre que uma situação fica insolúvel, prosperam as ideias mais irracionais, mais boçais para "resolver" o problema. Mesmo uma catástrofe sangrenta parecerá uma "verdade" nova. Já imaginaram os "tea parties" no Poder? 

3.5.11

Heróis cortadores das unhas dos pés.














Me desculpem o Rodin e o Antonio Prata, mas na crônica abaixo, substituindo-se o "cortar as unhas dos pés" por "sentar-se no trono" revelaria de forma mais visível a estapafúrdia tese - encampada por democratas e tiranos e seus aparelhos midiáticos - de que o ser humano precisa de heróis para viver:

"Li a história em algum lugar: toda vez que o poderoso general romano conquistava uma cidade e, parado no alto de uma colina, contemplava a extensão de seus domínios, vinha o subordinado para lhe cochichar no ouvido: "General: és baixo, gordo e calvo". O sussurro impedia que a glória subisse à cabeça -ou à careca- do militar, trazendo-o de volta às solas de suas sandálias, à sua risível condição humana: frágil e decadente.
 Eu também tenho, instalado dentro da minha cabeça, um desses assessores. Não para me resgatar dos píncaros da glória -no meu caso, meros calombos na planície do dia a dia, dos quais os espelhos, o senso de ridículo e o passar das horas encarregam-se de me trazer de volta-, mas para rebaixar outros, a quem tendo a ver como demasiadamente poderosos, às suas chãs humanidades. Eis o sussurro, capaz de transformar qualquer herói, celebridade ou tirano no mais comum dos mortais:"Imagine-os cortando as unhas dos pés".
 É este o mínimo denominador comum da humanidade:Obama cortas as unhas dos pés, Penélope Cruz corta as unhas dos pés, Jesus, na glória de seu ministério e Hitler, no auge de seu poderio, cortavam as unhas dos pés. Eles podem comer com talheres de prata, aparentar serem feitos de outro material, andar sobre as águas ou conquistar Paris, mas numa hora morta, encolhidos no banheiro ou no quarto, se verão sozinhos, segurando os pedacinhos de unha na mão em concha, ou depositando-os sobre a capa de uma revista, aberta no chão -assim como eu, você, o Jair Bolsonaro, a Preta Gil, a tia Lurdes, de Araraquara.
 Só há um momento na vida mais ínfimo do que ao cortar as unhas dos pés: quando nos preocupamos em cortar as unhas dos pés. Imagino Obama, antes de vir ao Brasil, no meio de uma reunião. Um militar lhe pergunta:"Presidente, iniciamos os bombardeios na Líbia?". Barack demora a responder. Está com a cabeça em outro lugar:"O hotel lá no Rio é em frente à praia. Talvez eu consiga dar um mergulho.Mas...Humpf... Minhas unhas dos pés estão grandes. Será que corto hoje à noite? Ou amanhã, no Air Force One, quando a Michelle e as meninas estiverem dormindo?".
 Talvez as unhas dos pés sejam um castigo divino. Ao expulsar-nos do Éden, além de condenar o homem a comer o pão com o suor do próprio rosto e a mulher a sofrer as dores do parto, rogou-nos a seguinte praga, perdida em alguma tradução do Antigo Testamento: "e por tua insolência porei na última fronteira de tua carne pequenas lâminas, às quais terás que aparar até que o derradeiro sopro se esgote em tuas narinas; e ao podá-las, curvado sobre o teu corpo frágil, contemplarás o pó do qual viestes, o pó ao qual voltarás, e lembrar-te-ás de tua pequenez, oh, arrogante nulidade!".
 Dizem que, mesmo nos mortos, quando postos em formol, as unhas continuam a crescer. Uma última ironia divina, quem sabe? O homem, único ponto em que o universo se percebe a si mesmo, apaga-se: aquelas ignaras células de queratina, contudo, continuam seu movimento, lento e inútil, em direção aos céus.
 Pois é, general: ainda que fosses alto, magro e cabeludo, serias mais frágil que as unhas dos teus pés. Que coisa, não?"

Crônica "As unhas dos pés", de Antonio Prata, in Cotidiano, 6/4/11, Folha de São Paulo.